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Renasce Salgadinho: o que já se sabia antes da obra?

por | 8 ago, 2026

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Por Dilson Ferreira*

A concepção do projeto, o tempo seco e de chuva e os limites atuais da obra do Riacho Salgadinho

1. O que já se sabia antes da obra

Ao revisitar os debates técnicos e tudo o que já escrevi sobre o Projeto “Renasce Salgadinho”, lá atrás, quando ainda estava no início do projeto e de sua implantação, uma constatação chama nossa atenção: boa parte dos problemas que hoje podem ser observados no sistema já havia sido levantada por especialistas em saneamento e técnicos envolvidos naquelas discussões técnicas e artigos.

Isso é importante porque afasta aquele ditado de “engenheiro que só critica obra pronta”.

Na verdade, o caso aqui é o contrário: as dúvidas sobre manutenção, ligações clandestinas, sedimentos, operação, vazões de chuva e as críticas técnicas ao sistema não surgiram depois da inauguração.

Pelo contrário, foram alertadas, inclusive, em debates técnicos de alto nível no CREA, reunindo alguns dos nossos maiores especialistas, professores da UFAL, técnicos da Prefeitura e do Estado, dentre outros.

Essas análises técnicas estavam colocadas quando ainda era possível discutir a concepção e o projeto executivo.

2. A escala da Bacia do Reginaldo

O primeiro ponto é compreender a escala.

O Salgadinho corresponde ao trecho final do sistema hidrográfico da Bacia do Reginaldo, uma bacia urbana de aproximadamente 27 km², cujo curso principal aparece historicamente associado às denominações Massayó, Reginaldo e, em seu trecho final, Salgadinho.

Esse sistema possui cursos d’água como Águas Férreas, Pau D’Arco, Riacho do Sapo e Riacho Gulandim. A bacia alcança, total ou parcialmente, cerca de 18 bairros de Maceió.

Portanto, o que chega à foz, na Praia da Avenida, é consequência do que acontece em toda a extensão da bacia: impermeabilização do solo, problemas de drenagem, erosão, desmatamento e ocupação de encostas, transporte de sedimentos, areia, lixo e esgoto.

Essa é uma regra elementar da hidrologia urbana:

A foz, lá embaixo, no mar, recebe a conta de tudo o que acontece desde a nascente.

3. A transformação urbana e a questão ambiental

O Renasce Salgadinho produziu uma transformação urbana?

Sim, urbanisticamente houve avanços.

O trecho da foz, área turística da praia, recebeu canalização, passeios, ciclovia, iluminação, paisagismo, travessias e áreas de convivência. Uma área que estava degradada ganhou outra relação com a cidade.

Isso é fato, apesar de o projeto apresentar problemas de manutenção e de concepção.

Mas requalificação urbana, controle de poluição e recuperação ambiental de uma bacia hidrográfica são coisas diferentes.

Achar que uma grande praça urbana resolve o problema histórico do riacho é ingenuidade, desconhecimento técnico ou pura manipulação de informação para a população.

E os próprios debates técnicos realizados durante a implantação do projeto ajudam a demonstrar isso.

4. O sistema concebido para o tempo seco

Em um dos debates no CREA, na ocasião, a equipe responsável explicou que o sistema sanitário havia sido concebido fundamentalmente para tempo seco.

Segundo os técnicos do projeto, foram realizadas campanhas de medição de vazão nessa condição e chegou-se a aproximadamente 500 litros por segundo, equivalentes aos cerca de 30 mil litros por minuto posteriormente divulgados nos informes do projeto e em reportagens.

O sistema prevê cinco estações elevatórias: Águas Férreas, Gulandim, Sapo, Pau D’Arco e Reginaldo.

Os efluentes são conduzidos pelo sistema até a estação principal no Vale do Reginaldo e, posteriormente, à Estação de Tratamento de Esgoto. Após o tratamento, seguem para o emissário submarino.

Sim, essa é uma solução importante para reduzir o lançamento de cargas contaminantes no período sem chuva, como reconheceram os próprios técnicos.

5. O que acontece quando chove

O problema muda quando chove.

Em um dos debates, os técnicos alertaram que, durante as chuvas, entram no sistema volumes muito superiores de água, incompatíveis com a lógica de bombeamento concebida para o tempo seco.

Essa água segue pelo sistema de drenagem e pelo riacho em direção à foz, podendo transportar sedimentos, resíduos e cargas poluentes acumuladas ao longo dos quase 13 km do vale até a Praia da Avenida.

As chuvas também aumentam a velocidade do escoamento e o transporte de areia, sedimentos e resíduos provenientes de toda a bacia.

Nos próprios debates foi reconhecido que, durante a chuva, poderia ocorrer inicialmente forte transporte de poluentes e, posteriormente, maior diluição do esgoto junto com a água da chuva.

Não à toa, durante eventos de chuva é possível observar na foz uma grande mancha de águas turvas e contaminadas avançando sobre o oceano.

Aqui existe uma distinção técnica fundamental:

Diluição de esgoto não é tratamento de esgoto.

As primeiras águas de determinados eventos de chuva podem produzir o chamado first flush, a primeira parcela do escoamento superficial, popularmente chamada de “chuva suja”, capaz de transportar grande quantidade de poluentes acumulados em ruas, sarjetas, galerias, grotas, becos e vielas.

Portanto, desde a origem, o Renasce Salgadinho nunca poderia ser entendido como um sistema capaz de tratar todo o esgoto produzido pela bacia e ser apresentado como a redenção ambiental da cidade.

Isso não é verdade.

Isso, a meu ver, é grave, pois, para mim, é um clássico caso de greenwashing, ou maquiagem ambiental, usando dinheiro público.

6. O próprio projeto reconhecia que haveria outras etapas

Havia outro aspecto revelador.

Nos debates técnicos, foi apresentada uma estratégia de atuação em diferentes horizontes, deixando claro que a intervenção então executada não representava, isoladamente, a universalização do esgotamento sanitário da Bacia do Reginaldo.

Havia a necessidade de ações posteriores, entre elas o combate às ligações clandestinas e a ampliação do esgotamento sanitário ao longo da bacia.

Ou seja:

O próprio planejamento reconhecia que a obra realizada não resolveria, isoladamente, o problema ambiental.

Isso era sabido publicamente, pois haveria outras etapas e intervenções necessárias ao longo dos anos.

Porém, a Prefeitura de Maceió vendeu e continua vendendo para nossa população a ideia de que a obra resolveu o problema do Salgadinho.

O mais grave é que a Prefeitura insiste em atribuir grande parte da degradação do riacho aos mais pobres que habitam a Bacia do Reginaldo, mesmo sabendo que a solução depende também da implantação de infraestrutura pública de saneamento, drenagem, coleta de resíduos e urbanização em toda a bacia.

Em resumo: culpam o povo pela poluição que o poder público ainda não conseguiu tratar.

7. A pergunta que deve ser feita agora

Hoje, com a obra concluída, inaugurada em 2026 e ao custo de mais de R$ 180 milhões, a pergunta não deve ser se o espaço urbano melhorou.

A pergunta é outra:

Houve recuperação ambiental integral da Bacia do Reginaldo, principalmente durante o período de chuvas?

Não.

A obra não representa a recuperação ambiental integral da Bacia do Reginaldo, especialmente sob condições de chuva.

A poluição do Salgadinho continuará sendo determinada, em grande medida, pelo que a Prefeitura, a Casal, a BRK e os demais responsáveis pelo saneamento, drenagem, limpeza urbana e gestão da bacia fizerem, ou deixarem de fazer, nos próximos anos.

E existe um dado que ajuda a compreender a dimensão do problema.

Enquanto o sistema de tempo seco trabalha com uma capacidade divulgada de aproximadamente 500 litros por segundo, ou 0,5 m³/s, estudos técnicos da própria bacia trabalham, em determinadas condições de projeto, com vazões de chuva que podem alcançar dezenas de metros cúbicos por segundo.

São grandezas destinadas a situações hidráulicas diferentes e não devem ser comparadas como capacidades equivalentes.

Mas elas ajudam a mostrar uma coisa básica:

tempo seco e tempo de chuva são situações completamente diferentes dentro de uma bacia hidrográfica urbana.

E essa diferença já era conhecida antes da obra.

Aguardem a continuação dessa discussão nos próximos artigos.

*Urbanista, professor dr. da FAU/UFAL.

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