Lideranças do povo Ashaninka, da Terra Indígena Kampa do Rio Amônea, no Acre, viajaram a Brasília para cobrar do governo federal medidas urgentes contra o avanço do crime organizado na fronteira entre Brasil e Peru. A mobilização ocorreu após uma invasão à principal aldeia do território, onde homens armados teriam ido em busca de lideranças indígenas.
Segundo os Ashaninka, cinco criminosos encapuzados e com armas de grosso calibre entraram na Aldeia Apiwtxa, em Marechal Thaumaturgo, procurando por Moisés Piyãko. O grupo não o encontrou porque ele estava fora da comunidade. As lideranças afirmam que já haviam recebido ameaças anteriores.
“Queriam nos matar. Já tinham mandado vários recados de que essa era a intenção”, afirmou Francisco Piyãko.
O episódio, considerado inédito pelos indígenas, aumentou a preocupação com a presença de organizações criminosas na região, onde, segundo os Ashaninka, atuam grupos ligados ao narcotráfico, exploração ilegal de madeira e garimpo.
A viagem a Brasília reuniu Francisco, Benki, Wewito e Moisés Piyãko em uma série de reuniões com órgãos federais. O objetivo foi apresentar um diagnóstico sobre a situação da fronteira e cobrar uma atuação permanente do Estado.
“Não estamos vindo pedir algo que não seja a proteção da fronteira e do território. O crime organizado entrou em nossa casa atrás de matar as nossas lideranças. Isso não dá mais. A gente precisa que o Estado faça a sua parte”, declarou Francisco.

Francisco Piyãko aponta um dos vários mapas elaborados pela Comissão Transfronteiriça que detalham a atuação do crime entre Brasil e Peru. Foto: Scarlett Rocha/SUMAÚMA
Pressão por ações permanentes
Durante os encontros, os indígenas apresentaram mapas e documentos que apontam o avanço de estradas ilegais e atividades criminosas próximas ao território brasileiro. Eles defendem que operações pontuais não são suficientes e pedem presença contínua das forças de segurança na região.
A Terra Indígena Kampa do Rio Amônea abriga cerca de 940 pessoas do povo Ashaninka, que há décadas desenvolve ações de preservação ambiental e manejo sustentável do território.
Segundo Benki Piyãko, os indígenas construíram uma relação de proteção com a floresta e recuperaram áreas degradadas ao longo dos anos.
“Plantamos mais de 4 milhões de árvores, reflorestamos toda a nossa terra, cuidamos dos nossos animais, do nosso rio, doamos tanto tempo da nossa vida para criar uma sustentabilidade”, afirmou.
Agora, as lideranças temem que o avanço do crime organizado ameace o trabalho desenvolvido e a segurança das comunidades.

‘Eles queriam nos matar’, diz Francisco Piyãko sobre a intenção dos criminosos mascarados e armados que invadiram a Aldeia Apiwtxa. Foto: Scarlett Rocha/SUMAÚMA
Governo promete reforçar atuação
Em Brasília, os Ashaninka participaram de reuniões com representantes do Ministério dos Povos Indígenas, Funai, Ministério da Justiça e Segurança Pública, Ministério do Meio Ambiente, Ministério das Relações Exteriores e organismos internacionais.
Como encaminhamento, a Funai deve solicitar o envio da Força Nacional para a região de Marechal Thaumaturgo. O Ministério da Justiça informou que será criada uma mesa permanente de diálogo para acompanhar as denúncias e coordenar as ações dos órgãos federais.
Durante uma reunião, a secretária Nacional de Justiça, Maria Rosa Guimarães Loula, afirmou aos indígenas que haverá atuação do governo.
“Vocês têm o compromisso de que a gente vai fazer”, disse.

A Aldeia Apiwtxa, na Terra Indígena Kampa do Rio Amônea, que deverá ser acompanhada por projeto-piloto de segurança da OTCA. Foto: Alexandre Cruz-Noronha/Amazônia Real
O Exército e o governo do Acre também informaram que intensificaram ações de patrulhamento na região de fronteira, com operações terrestres e fluviais.
Apesar dos avanços, as lideranças afirmam que a segurança só será garantida com uma estratégia permanente envolvendo Brasil e Peru, já que parte das atividades criminosas ocorre do outro lado da fronteira.
Após o retorno ao território, os irmãos Piyãko passaram a contar com escolta de militares do Exército. Eles afirmam, porém, que a proteção precisa ser contínua para evitar que novas ameaças voltem a colocar em risco a comunidade Ashaninka.
*Com o portal Sumaúma






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