Um grupo de pesquisadores e acadêmicos brasileiros tenta transformar a insatisfação com o avanço do negacionismo científico em participação política. Para as eleições de 2026, cientistas de diferentes áreas articulam pré-candidaturas ao Congresso Nacional e às Assembleias Legislativas com a proposta de levar o conhecimento científico para o centro dos debates públicos.
A mobilização, ainda em fase de organização, reúne nomes ligados a universidades, institutos de pesquisa e órgãos como a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A intenção é formar uma bancada voltada à defesa da ciência, da educação, da saúde pública e das políticas ambientais.
Entre os nomes já apresentados como pré-candidatos a deputado federal estão a cientista climática Luciana Vanni Gatti; o ex-diretor do Inpe Ricardo Galvão; a pesquisadora e ex-ministra da Saúde Nísia Trindade; o oceanógrafo e professor do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) Wilson Cabral de Sousa Júnior; a matemática e vereadora do Rio de Janeiro Tatiana Roque; e a geóloga Márcia Abrahão, ex-reitora da Universidade de Brasília (UnB).

Mobilização contra o então PL da Devastação, em 2025, levou a emergência climática para as ruas. Foto: Cris Faga/Folhapress
A cientista Luciana Gatti afirma que a entrada de pesquisadores na política é uma reação ao que considera decisões que ignoram evidências científicas, principalmente nas áreas ambiental e climática.
“A gente tem que fazer alguma coisa não planejada, fora do comum. O que o Congresso está fazendo vai determinar a aceleração do fim das nossas vidas”, declarou.

Márcia Abrahão, ex-reitora da UnB, e Tatiana Roque, professora da UFRJ, pré-candidatas à Câmara dos Deputados. Fotos: Edilson Rodrigues/Agência Senado e Alexandre Campbell/ICM201
Da defesa da pesquisa à disputa política
A ideia de aproximar cientistas do Legislativo ganhou força a partir de 2018, quando surgiu o movimento Cientistas Engajados, criado por professores e estudantes de pós-graduação de universidades paulistas. Na época, o objetivo era incentivar pesquisadores a disputarem cargos públicos para defender investimentos em ciência e tecnologia.
Segundo uma das fundadoras do movimento, Mariana Moura, a pauta mudou após a eleição de Jair Bolsonaro e o crescimento de discursos contrários a consensos científicos.
“Em 2018, a gente tinha um debate sobre o governo não estar prestando tanta atenção na ciência quanto deveria. Em 2019, já era a necessidade de defender a instituição ciência de ataques do governo”, afirmou.
Para pesquisadores envolvidos na mobilização, episódios como os debates sobre mudanças na legislação ambiental, cortes em investimentos científicos e a condução da pandemia de Covid-19 reforçaram a necessidade de maior presença de cientistas no Parlamento.

Wilson de Sousa, professor do ITA e pré-candidato a deputado federal, alerta para o desconhecimento sobre adaptação climática. Foto: Francisco Emolo/USP Imagem
Saúde e meio ambiente estão entre as prioridades
Ex-presidente da Fiocruz e ministra da Saúde entre 2023 e 2025, Nísia Trindade defende que a disputa eleitoral também é uma forma de combater a desinformação.
“O negacionismo é um projeto político. No caso do Brasil, foi uma política do governo no período da pandemia. Cientistas no Congresso não são uma novidade. Mas, hoje, o que nos diferencia é o combate ao negacionismo”, afirmou.
O ex-presidente do Inpe Ricardo Galvão, que chegou a assumir mandato na Câmara dos Deputados como suplente, também aponta a necessidade de qualificar os debates legislativos.
“O negacionismo é muito usado para colocar controvérsias inexistentes em resultados científicos que atrapalham o interesse de grupos políticos e grupos de interesse”, disse.

Depois de comandar a Fiocruz e o Ministério da Saúde, Nísia Trindade mira a Câmara dos Deputados. Foto: Marlene Bergamo/Folhapress
Movimento busca espaço também nos estados
A articulação não está restrita ao Congresso Nacional. Pesquisadores também avaliam disputar vagas nas Assembleias Legislativas, onde temas como meio ambiente, mudanças climáticas, saúde e educação são frequentemente debatidos.
A presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Francilene Procópio Garcia, afirma que a presença de cientistas na política pode contribuir para decisões mais qualificadas.
“É legítimo e desejável que pudéssemos ter pesquisadores e pesquisadoras que possam ocupar um espaço relevante em defesa da ciência”, declarou.
Para representantes da comunidade científica, a eleição de pesquisadores não significa criar uma representação de um único setor, mas ampliar a participação de especialistas em temas que envolvem desafios globais.
“Sem democracia, não há ciência livre. Sem ciência, não há democracia sustentável”, resume um documento da SBPC que reúne propostas para o país.
A expectativa dos articuladores é que o número de candidaturas seja ampliado até o período oficial de registro eleitoral, consolidando uma frente de pesquisadores dispostos a disputar espaço nas decisões políticas do Brasil.
*Com o portal Sumaúma






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