Por Duse Leite*
Sempre fui uma mulher de mudanças. Não dessas mudanças profundas, filosóficas, capazes de transformar a humanidade. As minhas mudanças sempre foram mais domésticas: um guarda-roupa daqui, uma cama dali, uma escrivaninha acolá. Se me deixassem, eu redesenharia o planeta a cada quinze dias.
Quando morava com meus pais, meu quarto era um verdadeiro laboratório de experiências. Eu arrastava móveis com tanta frequência que meu pai, homem inteligente e já cansado das minhas revoluções arquitetônicas, resolveu tomar uma medida drástica: construiu uma cama de alvenaria e um guarda-roupa embutido.
Era, claramente, uma tentativa de conter uma jovem perigosa.
A cama não sairia do lugar. O guarda-roupa também não. Faltou apenas cimentar a escrivaninha e colocar uma placa: “Proibido sonhar com mudanças.”
Mas o espírito da coisa permanecia vivo.
Anos depois, quando fui morar em Paripueira, encontrei a liberdade. Ali, tudo era solto. Cama solta, cômoda solta, mesa solta, cadeira solta. Eu podia acordar numa segunda-feira olhando para o coqueiral e, na sexta, estar admirando uma nuvem particularmente bonita do outro lado da janela.
Minha decoração seguia as estações do humor.
Se eu estivesse otimista, a cama apontava para o céu. Se estivesse reflexiva, virava para as árvores. Se estivesse aborrecida, mudava tudo de lugar para provar ao universo que ainda tinha algum controle sobre a vida.
Durante anos vivi feliz nessa democracia dos móveis.
Até voltar para a minha casa atual.
Meu quarto, infelizmente, foi concebido por pessoas que acreditam na permanência das coisas. O espaço não permite grandes aventuras. A cama praticamente nasceu ali e parece ter raízes. Os móveis se encaixam de tal maneira que qualquer tentativa de mudança exige conhecimentos de engenharia, três ajudantes e, talvez, autorização da Defesa Civil.
Resultado: vejo sempre a mesma paisagem.
Todas as manhãs está lá ele.
O pé de amora.
Não me entendam mal. Tenho enorme respeito pela árvore. Acompanho seu crescimento, observo as folhas, vejo as amorinhas passarem do verde ao grená, acompanho o trabalho dos passarinhos e até me preocupo quando demora a chover.
Mas a convivência excessiva pode desgastar qualquer relação.
Há dias em que penso:
— Meu querido pé de amora, você não gostaria de tirar umas férias?
Gostaria de abrir a janela e encontrar o céu inteiro. Em outros dias, preferiria apenas uma nuvem. Quem sabe uma chuva chegando. Talvez a lua. Qualquer novidade.
Mas não.
Lá está ele.
Firme.
Imóvel.
Observando-me com a serenidade de quem sabe que venceu.
Às vezes tenho a impressão de que o pé de amora olha para mim e pensa:
— Pode se mexer à vontade, minha senhora. Quem manda na paisagem sou eu.
E assim seguimos, numa convivência quase matrimonial. Eu, mulher das mudanças. Ele, árvore da permanência.
Talvez a vida esteja tentando me ensinar alguma coisa. Talvez algumas paisagens precisem ficar para que a gente perceba as mudanças que acontecem dentro de nós.
Ou talvez eu só precise de dois homens fortes, um carrinho de mudança e algumas horas livres para virar esse quarto de cabeça para baixo.
O pé de amora que se prepare. Porque, conhecendo a minha história, ainda não está descartada uma revolução mobiliária.
*Funcionária pública e jornalista






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