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Sincretismo das Canções

por | 18 ago, 2025

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Divulgação

Por Macléim Carneiro* 

Bem no comecinho dos anos 2000 eu procurei o meu primo Juninho, leia-se Sonic Jr., para trabalhar no que seria um primeiro esboço do álbum Esses Poetas. Durante o processo, compreendi que aquela linguagem dos bits eletrônicos, que o Juninho dominava como ninguém, não seria adequada à proposta das poesias musicadas. Porém, é daquela época, que tomei conhecimento do artista Wado, por meio de um simples comentário do Juninho: ”você conhece o trabalho do Wado? Esse cara vai dar o que falar!”

A previsão do Juninho não poderia ter sido mais certeira. Aliás, muito mais do que dar o que falar, Wado nos deu o quê ouvir! Com o recente lançamento do álbum ‘Obstrução Samba’, são 16 álbuns lançados em 24 anos de carreira. Ou seja, desde quando em 2001 ele trouxe à luz o ‘Manifesto da Arte Periférica’, botando as cartas na mesa e respaldando a bola de cristal do Juninho, temos uma perene e prolífera produção musical do catarinense radicado no aquário. E, como se não bastasse, ele ainda tem atuado como artista visual, realizando três exposições exitosas.

Nicho da Maturidade

Apesar de geograficamente estarmos na mesma latitude, só agora, resenho um álbum solo dele. Não que a sua música tenha passado despercebida por mim, ao longo do tempo. Não foi isso! Gosto bastante de alguns álbuns e canções de sua lavra. Por exemplo, gosto da sonoridade formatada para o álbum ‘A Farsa do Samba Nublado’, lançado em 2004, que tem na música ‘Tormenta’ uma pedra angular, com toda a força do riff rítmico e sua poética escatológica. Da mesma forma, gosto do álbum ‘Coração Sangrento’, Wado e Zeca Baleiro, resenhado recentemente para a Depois do Play. Porém, a orbe e o apelo estético dos álbuns lançados por ele, ao longo de sua carreira exitosa, não me credenciavam a opinar sobre algo que eu não tinha intimidade fruitiva, sem arriscar incorrer em erros de avaliação, por absoluta falta de referências e traquejo com o gênero e linguagem da música feita por este compositor tão singular!

 

Dito isto, só agora resolvi aventurar-me ao universo do seu novo álbum ‘Obstrução Samba’, porque entendo ter, a meu favor, o fato de já poder encontrar ferramentas no amadurecimento profissional e pessoal, bem como perceber que, assim como o seu público amadureceu cronologicamente, a música feita por Wado também se adequou ao novo nicho da maturidade. Mesmo assim, é um instigante desafio, pois sou um sujeito da primeira pessoa analisando o trabalho de um artista que costuma referir-se a si mesmo na terceira pessoa. Ou seja, não terei a facilidade do autodistanciamento pessoal.

 

Encadeamento Sonoro

 

Como sou alguém que tem ao menos um dos pés no século passado, trago comigo uma percepção de espaço e tempo um tanto analógica, digamos assim. Portanto, eu diria que esse é um álbum que leva em conta o imediatismo fugaz do streaming, das redes sociais e suas audiências, onde parece ser impróprio e fora de padrão a audição de algo que alcance, por exemplo, “excêntricos” três minutos de áudio ou dois parágrafos de texto. Como Wado parece ter traquejo, bom tráfico e sabe lidar com esses ambientes multimídias, sabiamente, nenhuma das faixas vai além de módicos 2 minutos e 45 segundos, e quase a metade delas tem pouco mais de 1 minuto. Logo, é um álbum absolutamente sem excessos e sintético, no sentido da escolha dos synths utilizados pelo alagoano Jair Donato, como encadeamento sonoro, que proporciona unidade e coerência entre as canções.

 

Todas as dez faixas são parcerias com o compositor mineiro Momo, que fez parte, assim como Wado, da primeira formação da banda Fino Coletivo. São músicas de espírito festivo, que nos remete a rituais sincréticos e formatam um trabalho solar e alegre por essência. Aliás, o próprio Wado declarou: “Esse é, sem dúvida, o meu melhor disco em muitos anos. É alto-astral, dançante, feito para a galera curtir e gastar sandália.” Wado foi gregário e trouxe para todas as músicas, participações especiais: Fábio Trummer (banda Eddie), Marina Nemesio, João Menezes, Junio Barreto, Priscila Tossan (ex AfroReggae), Janu, Alvaro Lancellotti (Fino Coletivo), Rogerio Dyaz e Adriano Siri (Fino Coletivo). Eles e elas traduzem um elenco plural, porém, bem dosado, assim como as levadas que vão do Ijexá e frevo baiano, passando por sambafunk, sambalanço, marchinha e até uma ciranda interrompida, formatando e dando vida à cartela de cores quentes e diversas, que constituem o mosaico colorido e sonoro deste instigante e coeso trabalho.

‘Obstrução Samba’ acrescenta ainda mais lógica ao DNA musical que Wado tem fortalecido ao longo de sua carreira. De acordo com ele, esse título foi inspirado no documentário ‘As Cinco Obstruções’, dos cineastas dinamarqueses Lars Von Trier e Jørgen Leth, que, em sua essência, mostra o desafio e a tarefa de refazer o que foi feito, cada vez com uma “obstrução” ou obstáculo diferente. Porém, ao contrário do que o título do álbum sugere, aqui, o samba foi desobstruído da obrigação em manter-se fiel à tradição, capaz de engessá-lo ao feitio originário. Neste trabalho, o samba e suas derivações ficaram livres e reestruturados para assumir o jeito Wado de fazer e refazer o que lhe é natural.

No +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!

Serviço
Obstrução Samba, Wado
Plataformas digitais: Spotify, Apple Music, Deezer, Tidal, Amazon Music e Youtube Music

 

(*) Macléim é jornalista, cantor e compositor. 

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