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O canto que serve a Chico serve a Francisco

por | 30 ago, 2026

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Em outubro de 2015, aconteceu no Teatro Deodoro o show Vertente, protagonizado pela cantora alagoana Lara Melo.  Como um dos resultados práticos e produto palpável desse espetáculo, tivemos ao alcance dos que ainda têm interesse por música de qualidade, além do DVD, o álbum homônimo ao show. O álbum em questão, objeto da nossa apreciação de agora, é um registro bastante fiel do que foi o primeiro show desse projeto arrojado de uma cantora, cuja trajetória começou animando festas da família e de amigos, para depois mostrar que santo de casa faz milagres e espalha encantamentos.

Privilegiada pelo dom natural para o canto, e por ter nascido em um ambiente musicalmente favorável – Marilda Melo, sua mãe, assinou a direção geral do álbum Vertente e, sem dúvida, é a maior incentivadora da bela e promissora carreira da filha –, desde os 15 anos de idade, Lara Melo procurou os caminhos, às vezes tortos ou tortuosos, que a música lhe apontava, para alcançar os objetivos que o filho de Zeus lhe reservara. Cantou durante quase 10 anos no Coretfal e atualmente encanta na banda Cai Dentro, o que, certamente, tem moldado e lapidado suas aptidões para o samba – gênero que ela domina com precisão e intimidade. De lá até aqui, Lara Melo se profissionalizou na ribalta aquariana, mas faltava ainda algo da dimensão de um grande show só dela, para ser acolhida definitivamente pelo público e pelo grande útero apolíneo da nossa principal casa de espetáculos que, vergonhosamente, agora encontra-se fechada pela insensibilidade dos governantes e gestores dos equipamentos culturais. Abstraindo-me dessa vileza, o fato é que o álbum Vertente é a prova irrefutável e realista de que Lara Melo estabeleceu um marco e um passo definitivo em sua carreira.

Regalo

Lembro-me de que em uma resenha pretérita, sobre o álbum do show Aqui Alagoas, com a obra do Ibys Maceioh interpretada por cantoras da cena aquariana, eu chamava atenção para uma questão limitante de mercado: a finalização pouco satisfatória do áudio daquele trabalho. Agora, essa questão também é pertinente ao álbum Vertente. Ou seja, como o álbum do Ibys, esse não é um disco feito para constar em prateleiras da livre concorrência de mercado. Ele funciona mais como um regalo do que foi realizado em determinado momento e circunstância específicos. Portanto, não me parece correto optar por uma avaliação criteriosa e muito menos técnica. Não é por aí! Prefiro a ponderação conceitual de alguns aspectos e peculiaridades que, talvez, não sejam tão evidentes ao público em geral.

Primeiro, e acho que essa foi a grande sacada desse álbum e do show, o insigth de Lara Melo em aproveitar o gancho de dois compositores homônimos e apresentar, em pé de igualdade, suas respectivas obras. Ambos são Chicos: um Buarque e outro Elpídio. Ambos dominam a arte de fazer sambas sofisticados e boleros embriagantes. Ambos já construíram uma obra para chamar de sua, porém, as semelhanças podem e devem parar por aqui. Esse limite é necessário, porque suas criações não podem e não devem ser comparadas, posto que são personalíssimas, como de resto é a persona e a alma criativa dos artistas que são íntegros com a sua arte. O fato é: nesse trabalho, Lara Melo mostrou que o canto que serve a Chico também serve a Francisco.

O segundo ponto digno de realce é o que eu não chamaria de sorte, mas de merecimento ao bom compositor, cujo talento é capaz de atrair parceiros e coadjuvantes escolhidos e apontados pelos deuses apolíneos. É o caso de Chico Elpídio, que encontrou no escritor Pablo de Carvalho o letrista primoroso para suas melodias e, já há algum tempo, os dois vêm construindo uma obra de qualidade, merecedora de aplausos e respeito. Pois bem, temos então a base de uma pirâmide cujo vértice tem o impressionismo da arquitetura do Egito antigo, pela precisão, encaixe e beleza do arremate! Chico Élpídio encontrou em Lara Melo o vértice da pirâmide, a voz que da vida às suas criações, o canto de timbre rouco-aveludado que personaliza e vivencia com expressividade o cerne musical do compositor. E que felicidade deve ser encontrar a intérprete perfeita para a sua obra! Isso, também fica evidente no álbum Vertente.

Participações Especiais

Embora, em algumas faixas, o áudio comprometa comercialmente esse trabalho, por outro lado, e isso é o que mais me interessa, temos o desempenho impecável da protagonista e de músicos tarimbados e escolhidos a dedo, para dar conta de um repertório tão cascudo. Felix Baigon (contrabaixo), Wilbert Fialho (violão), kemesson Lemos (piano), Allyson Paz (bateria), China Cunha (percussão) e Everaldo Borges (sax e flauta) foram coadjuvantes perfeitos para o arrojo de Lara Melo em encarar um setlist tão desafiador e se dar tão bem, interpretando com expressividade, sentimento, emoção e técnica apurada, canções clássicas, difíceis e já consagradas nas vozes de outras grandes intérpretes. Participações especiais, como as de Hian Abs (violoncelo), Rodrigo Gonçalves (trompete), grupo Cai Dentro, Coretfal, Andressa Melo e o singular Dydha Lyra agregaram valor a esse trabalho.

O significado da palavra vertente é normalmente aplicado à água, embora, neste caso específico, refira-se à música ‘Vertente Musical’ (Chico Elpídio e Geraldo Rebêlo), que abre o álbum. Os dois Chicos estão representados quase que equitativamente. O Buarque em dez faixas; o Elpídio em sete. Lara Melo transita entre eles com desenvoltura e como se fora uma vertente que fertiliza com o seu talento a obra de ambos. Assim como as águas, ela tem volume quando carece de força e tem leveza quando é banhar. Que Lara Melo siga o rumo das águas livres de represas, que chegam à imensidão do mar em comunhão com o universo e criam outra dimensão!

No +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!   

Pulo do Gato: Desde pequena que eu já conhecia a música do Chico Elpídio. Foi a música dele que me fez querer cantar.”

Ouça aqui: https://music.youtube.com/watch?v=J3Rin8l7HWA

 

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