Por Mácleim Carneiro*
Nas comemorações dos 107 anos do Teatro Deodoro, em 2017, o Patrimônio Vivo de Alagoas, Chau do Pife, lançou, no palco do grande útero apolíneo, o álbum ‘Meu Pife, Meu Amigo’. Era o 4º álbum deste artista talentoso e músico intuitivo que, aos 55 anos de carreira, há muito ninguém mais o conhece como José Prudente de Almeida. Contudo, todo mundo conhece a história desse artista popular e seus detalhes pitorescos. O que talvez poucos saibam é a origem do apelido Chau. De acordo com ele, “tinha um senhor já de idade, no município de Boca da Mata, dessas pessoas que andam pelo mundo só, aí o nome dele era Chau. Aí tiraram o nome dessa pessoa e botaram o nome em mim. Era Zé do Pife e aí ficou Chau, e não teve jeito mais.”
Particularmente, acredito na possibilidade da existência de uma genética musical, de uma carga de ancestralidade, sobretudo, em músicos de tamanha expressividade e musicalidade à flor da pele, como é o caso do Chau do Pife. O pai dele tinha uma banda de pife e tocava nas novenas do interior de Alagoas. Portanto, o mestre que ele hoje é, tem origem embrionária. Arrisco supor que ele sempre foi assim, desde o começo, um exímio encantador das tabocas de sete furos. Ele nasceu para isso e cresceu sabendo que apenas a vida seria sua escola evolutiva, pois os deuses da música já haviam lhe concedido o sopro e o dom apolíneo.
Fiéis Escudeiros
Neste disco, musicalmente falando, temos o mais do mesmo de sempre. Só que o mais do mesmo, em se tratando de Chau do Pife, é refestelança, daquelas de você botar o disco para tocar do começo ao fim e se deixar levar Nordeste a dentro, pelo encantamento sonoro do Mestre das duas oitavas. Ou deitar numa rede, amanhecendo o dia, ligar o radinho de pilha e ouvir qualquer um dos temas de ‘Meu Pife, Meu Amigo’, vendo o tempo passar suwingado e embalado pela simbiose perfeita entre os amigos em questão e o cheiro do café coado direto no bule.
Ressalte-se que ele está muitíssimo bem acompanhado por alguns dos seus fiéis e não menos talentosos escudeiros de outras e tantas jornadas, como Irineu Nicássio e o já saudoso Xameguinho (acordeon), Naldo Buchudo (zabumba), Xexéu (triângulo), Pezão (cavaquinho) e o bamba Van Silva (contrabaixo). Temos aí uma formação que vai além do clássico trio convencional que, a rigor, é tudo o que o Mestre precisa. Ocorre que a sonoridade alcançada se adequou à musicalidade do Mestre, e proporcionou a cama sonora e o conforto para que ele pudesse deitar e rolar nas 12 faixas do disco. E assim, em ‘Meu Pife, Meu Amigo’, abriu-se uma janela auditiva para os caminhos do forró pé de serra, forró repenicado, xote e até um samba de latada, nos moldes refinados de Josildo Sá.
Música Virtuosa
Em todo o projeto gráfico, não há referências a qualquer patrocinador, mecenas ou coisa que o valha. Subtende-se, pois, que o esforço para realização e produção deste trabalho coube ao artista. Portanto, conjeturo que as dificuldades, sobretudo financeiras, devem ter sido enormes! Então, a partir dessa premissa, cabe um questionamento: é incompreensível que um artista tão significativo para a cena musical de Alagoas, ao se propor fazer um novo álbum físico, cuja formatação engloba não apenas a parte musical, mas também arte gráfica, não ter, por merecimento, um cuidado caprichoso de uma expertise profissional que lhe proporcionasse um projeto gráfico relativo à sua música. Até porque, ele já recebeu tratamento caprichado anteriormente, por exemplo, no álbum ‘Ninguém Anda Sozinho’.
Chau do Pife merecia pacote completo! Sua música, de tão rica e verdadeira, desequilibra o todo e revela, sem querer, que o invólucro de um produto que ficará como legado à posteridade, não teve o devido cuidado estético à altura de um grande artista. E não se trata de querer muito, porque o muito será sempre a música virtuosa deste músico iluminado. O próprio Chau sabe disso, quando diz: “A pessoa não é feliz só por dinheiro, a pessoa é feliz amanhecendo o dia.”
No +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!🎶
Serviço
MEU PIFE, MEU AMIGO
Disco físico: pelo fone (82) 996961007 e pelo Mercado Livre.
(*) É jornalista, músico, cantor e compositor









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