Essa resenha marca o retorno à lida, pós férias da Depois do Play (carregando pedras, é bem verdade). Começo com uma questão tão em voga e até normatizada nos tempos atuais, sobretudo, pelo universo cibernético das redes sociais. Ou seja, terei que começar o ano e os trabalhos apelando para o achismo, na maior desfaçatez, como é inerente a todo ‘achista’ per si. Sinceramente, não me é confortável explicitar o achismo profissionalmente, tampouco convicções absolutas sobre nada. Porém, como não fazê-lo se o título do novo álbum do cavaquinista Salomão Miranda é ‘Verde-Cavaquinho’? Explico: o título do primeiro álbum dele é ‘Cavaquinho Azul’, portanto, tirando a mudança do predicativo, temos um claro indício de uma colorida trilogia em andamento. Resta-nos saber: qual será a próxima cor? Eis, destarte, o achismo em sua mais simplória e irrelevante exposição pública.
Depois desse parágrafo totalmente achista, vamos ao que de fato interessa: ‘Verde-Cavaquinho’ é o resultado de um único show feito pelo músico pernambucano Salomão Miranda, em junho de 2024, no Teatro de Arena. Embora pernambucano, Salomão está radicado no aquário há 19 anos e sua afinidade com a nossa latitude e musicalidade foi declarada nesse novo trabalho, realizado com alguns dos melhores músicos locais. Assim, Salomão Miranda garantiu meio caminho andado, para que o resultado final fosse bastante satisfatório! Com isso, deu um salto de qualidade em relação ao álbum anterior. Anderson Almeida (contrabaixo), Dinho Zampier (teclados) e Rodrigo Sarmento (bateria) formam o power trio escolhido por Salomão Miranda. Porém, ele engrossou o caldo verde, com as participações especiais de Ana Gal, atuando competentemente, GB Lyra, ao violão inodoro e, visualmente, a bailarina Débora Amaral, para os que tiveram o privilégio do show ou queiram acessá-lo no Youtube, devidamente editado.
Ponto Cego
Em 2018, ao resenhar o álbum ‘Cavaquinho Azul’, pontuei algumas questões técnicas mal resolvidas na captação e mixagem. Contudo, ficou claro ser um trabalho cuja criatividade era evidente nas boas ideias musicais de um compositor sensível. Pois bem, desde então, são seis anos de notória evolução de Salomão Miranda, facilmente perceptível neste novo trabalho. Entretanto, o que me deixou muito feliz foi perceber que, para este álbum, Salomão teve o cuidado técnico necessário aos itens citados, livrando-o do ponto cego que tanto prejudicou o resultado final do seu primeiro álbum.
‘Matuto na Festa’ (Salomão Miranda) abre os trabalhos num clima de suspense, para depois cair num baião agalopado, tipo: ‘é um, é dois, é três, é mil’, se letra tivesse, e logo precipitar-se numa levada de frevo. Ou seja, fica bem claro que teremos festa das boas! ‘Boi Vagaroso’ (S. M.) tem a pegada dos Bois de Parintins ralentados, como o título prenuncia. De bônus, tem uma melodia que, embora seja quase monocórdica, encanta pelo jogo sutil da variação harmônica, que a conduz para caminhos sensíveis à emoção. Sem dúvida, um dos bons momentos desse álbum! Na sequência, vem ‘Choro Alagoano’ (S. M.), um tanto hibrido é bem verdade, mas retrata o apreço do compositor por Alagoas, como ele mesmo declarou: “Essa música é minha singela homenagem ao Estado nordestino onde vim morar para fazer faculdade, e fui ficando, ficando… Se em Pernambuco, onde nasci e fui criado, alicercei meu conhecimento musical, em Alagoas eu ampliei minhas vivências e percorri a maior parte da minha trajetória como músico profissional”.
Malemolência do Mestre
As agradáveis surpresas vão se sucedendo, como é o caso da faixa 4, ‘O Que Sai de Mim’ (S. M.), com um que de samba swingado, de fazer inveja aos mestres do gênero. ‘Xote Inofensivo’ (S. M.) é uma pegadinha, a começar pelo título, pois de xote tem nada ou quase nada tem; os russos que o digam. Chegamos a metade do álbum em ‘Aurora’ (S. M.), que nos presenteia com a sensibilidade de um Salomão compositor madurado, daqueles que sabe dos caminhos que escolheu para trilhar. Especificamente, nessa faixa, proporciona ao ouvinte atento um belo diálogo de fraseados com o teclado de Dinho Zampier. Na sequência, ‘Para Um Encontro de Estudantes’ (S. M.) é uma marcha rancho bem confortável, para a participação do convidado GB Lyra ao violão, sem maiores prejuízos para ninguém! Daí, passamos pelo sambinha ‘Rio Grande do Norte’ (S. M.), onde Salomão abre espaço para improvisação do power trio, sobressaindo-se o competente solo de contrabaixo de Anderson Almeida. Na faixa seguinte, chegamos em mais uma concentrada e viva participação especial da Ana Gal, na marchinha ‘A Luz do Por do Sol’ (S. M.), com a cancha para um scat singing um tanto comportado demais, levando-se em conta o potencial da protagonista. Como prenúncio do fim, temos o afoxé ‘Balança Menina’ (S. M.) e, na sequência, um galope arretado, ‘Arrasta-Pé da Alegria’ (S. M.), retoma a festa anunciada na primeira faixa e brilhantemente acontecida ao longo do álbum, até chegarmos à décima segunda e última faixa, ‘Lagartixa’ (Zé do Cavaquinho), com toda a malemolência do saudoso mestre de Viçosa, numa bela e justíssima homenagem a um dos ícones do cavaquinho caeté. E como não poderia deixar de ser, tudo o que é bom acaba em festa!
Pois que venha a suposta trilogia, seja em que cor vier, para consolidar a maestria de Salomão Miranda, que sabe compor com a simplicidade que ressalta o belo, priorizando o que há de mais sublime na música: a melodia! ‘Verde-Cavaquinho’ é um álbum sem firulas desnecessárias e sem o virtuosismo malabarista dos excessos de notas irritantes, que desafiam músicos, mas não dizem nada! Que venha sim, até para que eu não fique apenas no achismo inconsequente e tenhamos mais um ótimo trabalho, para o acervo e os parcos e bons ouvintes da música instrumental aquariana.
No +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!!
SERVIÇO
Verde – Cavaquinho, Salomão Miranda
Plataformas digitais: Spotify, Apple Music, Deezer, Tidal, Amazon Music e Youtube Music







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