A imagem de mulheres submissas aos maridos, dedicadas exclusivamente à casa e aos filhos, ganhou força nas redes sociais, mas esconde uma contradição: algumas das principais influenciadoras que promovem o estilo de vida das chamadas tradwives — abreviação de “traditional wives”, ou esposas tradicionais — são também empresárias que movimentam negócios milionários.
A análise é da escritora americana Caro Claire Burke, autora de Bons Tempos: Yesteryear, em entrevista ao programa Book Club, da BBC Radio 2. O conteúdo foi publicado pela BBC News Brasil.
“Existe uma certa ironia aí”, afirmou Burke, ao observar que mulheres que apresentam nas redes uma postura de submissão e dizem não sair de casa muitas vezes são as principais provedoras de suas famílias e administram grandes negócios.
O fenômeno está no centro do primeiro romance da escritora, lançado no Brasil pela Editora Rocco e com adaptação cinematográfica em desenvolvimento. A história acompanha Natalie Heller Mills, uma influenciadora de 32 anos, casada, mãe de cinco filhos e grávida do sexto, que vive em uma fazenda em Idaho e constrói para milhões de seguidores uma rotina aparentemente perfeita.
Ela produz alimentos artesanalmente, educa os filhos em casa e exibe uma vida rural baseada em papéis tradicionais de gênero. Na internet, o marido aparece como provedor, enquanto ela assume o papel de esposa dedicada à família.
A aparente perfeição, porém, faz parte de uma construção cuidadosamente planejada para as redes sociais — e altamente lucrativa.
Quando a fantasia vira realidade
Na trama, Natalie é transportada repentinamente para 1855, período histórico que representa justamente o passado idealizado por ela. A experiência faz com que a personagem confronte as condições reais de uma época em que mulheres tinham direitos e possibilidades muito mais restritos.
Segundo Burke, a ideia do livro surgiu de sua observação sobre a forma como as pessoas constroem personagens para si mesmas, especialmente nas redes sociais.
“Tenho muito interesse em como todos nós, de certa forma, performamos o tempo todo, tanto online quanto na vida real”, disse a escritora à BBC.
Para ela, o debate não está simplesmente em questionar as escolhas individuais de mulheres que adotam esse estilo de vida. O problema aparece quando determinadas ideias são transformadas em conteúdo e disseminadas para milhões de pessoas, muitas vezes por meio de uma representação que pode não corresponder à realidade.
Fenômeno cultural
As tradwives se tornaram um fenômeno relevante da cultura digital, especialmente entre grupos conservadores. Elas defendem ou encenam modelos familiares nos quais o homem assume o papel de provedor e a mulher prioriza maternidade, casamento, cuidados domésticos e submissão ao marido.
A pesquisadora Rachel Sykes, professora de cultura e literatura contemporânea da Universidade de Birmingham, afirmou à BBC Culture que essas mulheres despertam interesse justamente pelo caráter exagerado de suas representações.
O paradoxo também alimenta o debate: enquanto algumas influenciadoras criticam a carreira profissional feminina e defendem a dependência econômica em relação aos homens, constroem simultaneamente marcas pessoais, empresas e fontes próprias de renda a partir da atividade nas redes.
Livro ganha adaptação para o cinema
Bons Tempos: Yesteryear alcançou as listas de mais vendidos nos Estados Unidos e no Reino Unido e ganhou grande repercussão em comunidades literárias nas redes sociais.
A obra também chamou a atenção da atriz Anne Hathaway, que adquiriu os direitos para uma adaptação cinematográfica. Ela deverá produzir e estrelar o filme.
Para Burke, o interesse provocado pela história está justamente na capacidade de discutir, por meio da ficção, temas que atravessam diferentes aspectos da vida contemporânea, como maternidade, trabalho, economia, gênero e exposição nas redes sociais.







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