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Aos 100 anos, Marilyn Monroe é lembrada além do mito hollywoodiano

por | 7 jun, 2026

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Se estivesse viva, Marilyn Monroe completaria 100 anos em 1º de junho. Um século após seu nascimento, a atriz continua sendo uma das figuras mais reconhecidas da cultura popular mundial. No entanto, por trás da imagem construída por Hollywood — a da loira sensual, ingênua e eternamente desejada — existia uma mulher de origem humilde, interesse intelectual amplo e posicionamentos políticos pouco lembrados pela narrativa dominante.

A cena mais emblemática de sua carreira, em que o vestido branco é levantado pelo vento sobre uma grade de ventilação em Nova York no filme O Pecado Mora ao Lado, consolidou sua condição de símbolo sexual. Transformada em ícone da indústria cultural, Marilyn viu sua imagem associada quase exclusivamente à sensualidade, enquanto aspectos mais complexos de sua trajetória permaneceram em segundo plano.

No centenário da atriz, uma homenagem do Partido Comunista da Grã-Bretanha chamou atenção por destacar justamente essa dimensão menos conhecida. Em publicação nas redes sociais, a legenda afirmou celebrar “a intelectual e a camarada”, ressaltando suas origens proletárias, o interesse por autores marxistas, a simpatia por experiências socialistas e sua oposição ao racismo e ao macarthismo.

“Precisamos reconhecer que a luta de Monroe era a interseção entre a exploração de classe e a violência patriarcal”, afirmou o partido. Para a organização, a atriz foi uma trabalhadora cuja imagem e corpo foram explorados por uma indústria que exigia beleza, silêncio e submissão.

Antes de se tornar estrela de Hollywood, Marilyn — nascida Norma Jeane Mortenson — viveu uma infância marcada pela instabilidade. Passou por diversos lares adotivos e por um orfanato, casando-se aos 16 anos para evitar retornar à institucionalização. Durante a Segunda Guerra Mundial, trabalhou em uma fábrica de munições na Califórnia, experiência que a colocou em contato direto com a realidade do trabalho industrial.

Documentos do FBI divulgados posteriormente revelam que a atriz esteve sob vigilância devido a suas opiniões políticas e amizades. As investigações apontavam seu interesse por temas ligados à esquerda, aos direitos civis e à igualdade racial, embora a própria agência tenha concluído não haver evidências de vínculo com o Partido Comunista dos Estados Unidos.

A curiosidade intelectual de Marilyn também chamou atenção de contemporâneos. Sua biblioteca reunia autores como Karl Marx, Mao Tsé-Tung, Fiódor Dostoiévski, Walt Whitman e Sigmund Freud. O ator Marlon Brando chegou a descrevê-la como uma mulher de inteligência sofisticada, distante da caricatura frequentemente associada à sua imagem pública.

Sua atuação em causas sociais também deixou marcas. Um dos episódios mais conhecidos envolve a cantora Ella Fitzgerald. Diante da resistência de um tradicional clube de Hollywood em contratar artistas negras, Marilyn interveio diretamente e garantiu a contratação da cantora ao prometer presença constante nas apresentações. Anos depois, Fitzgerald afirmou: “Devo muito a Marilyn Monroe”.

A atriz também demonstrou solidariedade ao dramaturgo Arthur Miller durante o período de perseguição política promovido pelo macarthismo. Mesmo correndo riscos profissionais, ela o apoiou publicamente quando ele foi alvo de investigações do Comitê de Atividades Antiamericanas.

Ao longo da carreira, Marilyn tentou ampliar seu controle sobre a própria trajetória artística. Em 1955, fundou sua própria produtora em uma iniciativa considerada ousada para uma mulher no sistema de estúdios da época. A decisão foi interpretada por parte da indústria como um gesto de insubordinação, evidenciando os limites impostos às atrizes que buscavam autonomia.

As comemorações pelo centenário da estrela reacenderam debates sobre sua herança cultural. Além das homenagens tradicionais que recordam sua beleza, romances e tragédias pessoais, surgem iniciativas que procuram recuperar uma figura mais complexa: uma mulher que enfrentou preconceitos, questionou estruturas de poder e recusou ser definida apenas pela imagem que Hollywood construiu.

Cem anos após seu nascimento, Marilyn Monroe permanece como um dos maiores símbolos do cinema mundial. Mas sua história sugere que, por trás do mito, existia uma personalidade muito mais rica, politizada e contraditória do que a memória popular costuma reconhecer.

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