Na noite do último dia 10, uma cena rara e profundamente simbólica tomou conta da Universidade Federal de Alagoas (Ufal): 24 estudantes, vindos de assentamentos da reforma agrária, comunidades rurais e quilombos do Nordeste, colaram grau como bacharéis em Agroecologia, na primeira turma do país formada por meio do Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera).
Vindos de cinco estados — Alagoas, Ceará, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte — esses novos profissionais representam muito mais do que uma conquista pessoal. Representam o direito de existir, de aprender e de produzir saberes a partir dos territórios do campo e da luta social. A formação em agroecologia não é apenas uma titulação: é uma resposta concreta ao modelo de desenvolvimento excludente que há séculos marginaliza camponeses, quilombolas e povos do interior do país.
A agroecologia, neste contexto, é ciência, resistência e alternativa. Esses jovens e adultos se formaram não para replicar modelos impostos, mas para construir tecnologias sustentáveis enraizadas em seus próprios modos de vida e saberes tradicionais. Cada formando é um elo entre o chão da roça e os laboratórios da universidade pública, uma ponte entre as urgências da terra e a produção de conhecimento científico comprometido com a vida.
A presença dessa turma na Ufal — primeira do Pronera a ofertar ensino superior na instituição — marca também a potência das políticas públicas voltadas à educação do campo. Em um Brasil marcado pela concentração fundiária e pelo desmonte de programas sociais, o Pronera se afirma como um instrumento de emancipação política e transformação social. Ele demonstra que a universidade não pode ser apenas espaço de elites urbanas, mas precisa ser atravessada pelas vozes e experiências de quem constrói o país com as mãos na terra.
A cerimônia de colação de grau, celebrada com emoção e memória dos desafios superados, é um marco na luta por uma educação pública, popular. Cada formando e formanda carrega agora não apenas um diploma, mas o compromisso de retornar aos seus territórios e fortalecer práticas de produção agroecológica, autonomia alimentar e justiça ambiental.
Mais do que uma formatura, foi uma colheita coletiva de sonhos que teimaram em crescer mesmo entre os espinhos do descaso e da desigualdade.







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