O empresário Nelson Tanure, conhecido por aquisições agressivas e controversas no mercado brasileiro, deu um passo estratégico para consolidar sua proposta de compra do controle da Braskem: contratou uma empresa norte-americana especializada em engenharia e infraestrutura que atuou no caso do desastre da Samarco, em Mariana (MG), para assessorá-lo na análise de riscos ambientais e financeiros da petroquímica.
A revelação foi feita em reportagem exclusiva do Valor Econômico, e indica que Tanure busca blindagem técnica e jurídica para seguir com a negociação que pode reposicionar sua atuação no setor industrial e energético. A consultoria contratada tem experiência direta em litígios complexos de responsabilidade ambiental, o que é fundamental no caso da Braskem, especialmente por causa da exploração gananciosa de sal-gema em Maceió (AL), que resultou no deslocamento de mais de 60 mil pessoas e em compromissos de indenização que já ultrapassam R$ 18 bilhões.
Segundo fontes próximas ao empresário, a consultoria fará uma análise detalhada dos riscos envolvidos, especialmente no que se refere às possíveis contingências futuras, impacto reputacional, exigências de reparação e implicações regulatórias. Trata-se de uma diligência técnica que poderá definir os termos da proposta vinculante, ainda não formalizada.
Estratégia com múltiplas frentes
Tanure já havia sinalizado ao mercado sua intenção de adquirir a parte da Novonor (antiga Odebrecht) na Braskem, e desde maio conduz negociações em regime de exclusividade com os controladores. Para conduzir os diálogos financeiros, Tanure contratou o banco de investimentos Rothschild & Co, que vem mediando conversas com os principais credores da Braskem — entre eles, BNDES, Itaú, Bradesco e Santander — e também com a Petrobras, que é a segunda maior acionista da Braskem. Embora não detenha o controle da empresa, que permanece com a Novonor (antiga Odebrecht), a Petrobras possui cerca de 36% do capital total e quase metade das ações com direito a voto, o que lhe garante forte poder de influência nas decisões estratégicas e no desfecho da possível transferência de controle.
O movimento ocorre num momento delicado: as ações da Braskem oscilam diante das incertezas sobre a sucessão do processo de indenização em Alagoas, e credores se mostram cautelosos quanto à proposta de Tanure. Fontes ouvidas pela Reuters apontam que bancos ainda consideram o plano “vago”, embora reconheçam que a entrada de uma consultoria robusta no processo dá credibilidade à tentativa de fechar um acordo estruturado.
Desastre em Maceió segue no centro da disputa
A Braskem enfrenta um dos maiores passivos socioambientais da história do setor industrial no Brasil. O colapso provocado pelas atividades da petroquímica em cinco bairros de Maceió transformou a paisagem da capital alagoana e permanece como um elemento central para qualquer mudança no controle acionário da empresa. A proposta de Tanure, segundo interlocutores, está condicionada a um acordo definitivo sobre os custos e responsabilidades desse desastre, que continuam em disputa com órgãos públicos, comunidades afetadas e o Ministério Público.
A contratação da consultoria que atuou no caso Samarco indica que Tanure está disposto a mapear profundamente o legado tóxico da Braskem, do ponto de vista técnico e jurídico. No caso Samarco, a firma contribuiu para avaliar falhas de engenharia, consequências sociais e planos de mitigação — experiência agora aplicada à realidade de Maceió.





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