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Tilápia-do-Nilo avança no Xingu e ameaça biodiversidade da Amazônia paraense

por | 13 jul, 2026

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Nas águas de uma lagoa usada por moradores de Altamira, no sudoeste do Pará, para lazer e pesca, uma espécie estrangeira começa a acender um alerta ambiental. A Tilápia-do-Nilo, peixe originário da África e amplamente criado no Brasil para consumo, foi identificada em um ambiente próximo ao rio Xingu e levanta preocupações sobre os impactos que sua expansão pode causar sobre espécies nativas da região.

A situação foi revelada em reportagem do portal Sumaúma, que acompanha o avanço da espécie na Lagoa do Independente 2, em Altamira. Segundo a publicação, pesquisadores temem que a Tilápia consiga se estabelecer no Xingu, ameaçando peixes que fazem parte da biodiversidade local, incluindo espécies encontradas apenas naquela região.

Com capacidade de chegar a cerca de 60 centímetros, reprodução rápida e grande resistência ambiental, a Tilápia-do-Nilo tornou-se uma das espécies mais cultivadas no país. O problema, segundo especialistas ouvidos pela reportagem, ocorre quando exemplares escapam de criatórios ou são introduzidos de forma irregular em rios e lagos.

A legislação brasileira proíbe a introdução de espécies exóticas em ambientes naturais sem autorização dos órgãos competentes. O decreto federal nº 6.514/2008 prevê multas para esse tipo de infração, enquanto normas do estado do Pará restringem a criação de peixes exóticos e híbridos em rios e lagos.

Apesar das regras, a presença da Tilápia na lagoa de Altamira passou a ser percebida inicialmente por pescadores, que capturavam o peixe para consumo ou praticavam o chamado “pesque e solte”.

A lagoa onde a teia da vida foi redesenhada com a chegada da tilápia-do-nilo | Marcio Nagano/Sumaúma

Risco para os peixes do Xingu

O pesquisador Leandro Melo de Sousa, da Universidade Federal do Pará (UFPA), afirmou à Sumaúma que já identificou a presença da espécie no rio Xingu.

“No Rio Xingu está caindo Tilápia. Ainda não é muito, mas já existe.”

Segundo o especialista, a população da espécie na lagoa já estaria estabelecida.

“Lá tem filhotinho, tem tudo. Você passa a rede lá, você pega todos os estágios. Então, é uma população bem estabelecida.”

Para pesquisadores, a principal preocupação é que a Tilápia passe a disputar espaço e alimento com espécies nativas, especialmente os acarás, peixes da mesma família que possuem papel importante no equilíbrio dos ecossistemas amazônicos.

A espécie possui características que favorecem sua expansão: crescimento rápido, reprodução durante todo o ano e capacidade de sobreviver em diferentes condições ambientais. Em ambientes alterados por barragens, desmatamento e outras pressões, a possibilidade de adaptação aumenta.

O pesquisador Jansen Zuanon, especialista em peixes amazônicos de água doce, afirmou à Sumaúma que a chegada da Tilápia ao Xingu poderia agravar impactos já provocados pela hidrelétrica de Belo Monte.

Segundo ele, caso a espécie se estabeleça, peixes nativos — incluindo espécies endêmicas, que só existem naquela região — podem desaparecer.

Foto: Juliana Bastos/Sumaúma

Expansão da criação preocupa ambientalistas

A presença da Tilápia na Amazônia ocorre em meio ao crescimento da piscicultura no Brasil. Dados citados pela reportagem da Sumaúma mostram que a produção da espécie alcançou centenas de milhares de toneladas por ano, movimentando um mercado bilionário.

O setor produtivo defende a expansão da criação de Tilápia como alternativa econômica e fonte de proteína. Uma das propostas debatidas é o cultivo em tanques-rede instalados em reservatórios de hidrelétricas, modelo que já foi adotado em estados como Tocantins e Mato Grosso.

Pesquisadores, porém, alertam para a dificuldade de impedir totalmente escapes desses sistemas.

“Você nunca vai ter um sistema que é 100% à prova de escapes”, afirmou Leandro Melo, segundo a reportagem da Sumaúma.

Para especialistas, o risco aumenta em regiões onde os ecossistemas já sofreram alterações provocadas por barragens, pesca predatória, mineração e desmatamento.

Ariduia (cauda laranja e preta) E acará-para-terra. A diversidade nativa do Xingu está ameaçada | Marcio Nagano/Sumaúma

Impacto sobre comunidades tradicionais

Além da ameaça ambiental, pesquisadores e moradores apontam possíveis consequências sociais. A redução da diversidade de peixes pode afetar diretamente comunidades indígenas e ribeirinhas que dependem da pesca como fonte de alimento, renda e identidade cultural.

Maria Francineide Ferreira dos Santos, integrante do Conselho Ribeirinho de Altamira, relatou à Sumaúma a preocupação com a diminuição do pescado na região.

“Os peixes estão se esvaindo.”

Para pesquisadores, o avanço de espécies exóticas não representa apenas uma disputa entre peixes, mas uma mudança no equilíbrio de todo o ecossistema. A substituição de espécies tradicionais por uma espécie criada para produção comercial pode alterar hábitos alimentares, relações culturais e a economia de comunidades que vivem dos rios.

Foto: Soll/Sumaúma

Medidas de controle

O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) informou à Sumaúma ter confirmado indícios da presença da Tilápia-do-Nilo na Lagoa do Independente 2 e recomendou a realização de uma despesca — retirada dos exemplares do local.

Segundo o órgão, a ação deveria ser feita em parceria com as autoridades ambientais estaduais e municipais. Até o momento, porém, a retirada dos peixes ainda não havia sido concluída.

Enquanto as medidas de controle avançam, especialistas alertam que o caso de Altamira revela um desafio maior: conciliar a expansão da produção aquícola com a proteção de ecossistemas únicos da Amazônia.

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