
Quilombos identificados ficam nos atuais municípios de Correntes e Lagoa do Ouro, no Agreste de Pernambuco, e na região de Chã Preta e União dos Palmares, em Alagoas | Lucas Jerônimo
No alto da Serra da Barriga, em União dos Palmares, o vento sopra histórias que o tempo tentou silenciar. Tombada como Patrimônio Cultural desde 1986 e reconhecida, em 2017, como Patrimônio Cultural do Mercosul, a serra é mais do que um marco geográfico: é um símbolo continental de liberdade. Foi ali que pulsou o Quilombo dos Palmares, o maior território de resistência negra do período colonial na América Latina, um espaço de vida coletiva, autonomia e enfrentamento ao sistema escravista.
Agora, quase quatro séculos depois, Palmares volta a se expandir — não em território físico, mas no campo da memória, da ciência e da história. Uma descoberta recente promete redesenhar os limites conhecidos desse quilombo e aprofundar a compreensão sobre sua real dimensão. O achado veio de longe: na biblioteca da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, o cartógrafo histórico Levy Pereira identificou um mapa inédito que amplia, de forma significativa, o entendimento sobre a ocupação quilombola no Nordeste do século XVII.
O documento é uma versão manuscrita do Brasilia Qua Parte Paret Belgis (“A parte do Brasil que pertence aos neerlandeses”), do matemático e naturalista George Marcgraf, e integra um conjunto de nove mapas produzidos durante o período da ocupação holandesa. Mais do que um registro cartográfico, o material revelou pistas decisivas sobre a extensão territorial de Palmares, apontando que o quilombo não se restringia à Serra da Barriga, como por muito tempo se acreditou.
A partir dessa descoberta, uma equipe multidisciplinar formada por pesquisadores da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) – Campus do Sertão, em parceria com a Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), deu início a uma investigação inédita, que une arqueologia, história, cartografia e antropologia para revisitar, com novos olhos, o território palmarino.
Até então, os estudos sobre Palmares eram geograficamente limitados. Com o novo mapa em mãos, a equipe avançou na identificação de áreas que aparecem nos relatos de cronistas holandeses como “Velho Palmares”, “Outro Palmares” e “Palmares Grande”, abrangendo regiões hoje situadas entre Alagoas e Pernambuco. O trabalho envolveu a conversão de medidas históricas para parâmetros atuais e a sobreposição de mapas antigos a imagens de satélite.
“Utilizamos referências geográficas mencionadas pelos cronistas e cruzamos essas informações com tecnologias contemporâneas. Assim, conseguimos delimitar três áreas sensíveis, onde acreditamos que estavam esses grandes aglomerados de mocambos”, detalha Moraes.
As primeiras incursões de campo já trouxeram indícios promissores. Em visitas de reconhecimento de superfície, os pesquisadores identificaram alterações no solo que sugerem construções defensivas, como fossos e paliçadas — estratégias comuns em territórios constantemente ameaçados por expedições repressoras. “Essas feições parecem intencionais e indicam práticas de proteção coletiva. Em janeiro, iniciaremos escavações de sondagem para confirmar essas hipóteses, talvez encontrando artefatos que estavam enterrados e silenciosos há séculos”, antecipa o arqueólogo.
A pesquisa ganhou um impulso decisivo no último 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. Na data simbólica, Flávio subiu a Serra da Barriga ao lado do presidente da Fundação Cultural Palmares (FCP), João Jorge Rodrigues; do reitor da Ufal, Josealdo Tonholo; e do diretor da FCP, Guilherme Bruno dos Santos, para a assinatura do Termo de Execução Descentralizado (TED), que destina R$ 300 mil ao projeto.

Em novembro foi assinado o Termo de Execução Descentralizado (TED), que investirá R$ 300 mil na realização da pesquisa na região | Assessoria
“A assinatura em uma data tão significativa reforçou o objetivo principal da pesquisa, que é promover uma guinada histórica no acesso a informações que foram, durante muito tempo, intencionalmente apagadas”, destaca Flávio. “O 20 de novembro carrega um peso simbólico enorme para o movimento negro e para as comunidades de terreiro. Foi o momento ideal para reafirmar nosso compromisso com a verdade histórica.”
Com duração inicial de 18 meses, a pesquisa terá início em janeiro de 2026 e busca ir além dos registros escritos. O foco é a cultura material — aquilo que os documentos coloniais não narraram. “Conhecemos bem os instrumentos de opressão, mas sabemos pouco sobre os espaços de vida, os rituais, as festas e as tecnologias desenvolvidas em Palmares. Queremos trazer à luz o cotidiano palmarino, os saberes produzidos ali”, explica.
Para Flávio, esse movimento é também uma resposta direta às narrativas coloniais que associaram, historicamente, os povos negros ao atraso. “Construiu-se um imaginário focado apenas na escravidão, na dor e nos instrumentos de tortura, enquanto os espaços de liberdade e produção de conhecimento foram ignorados. A arqueologia tem um papel fundamental no combate a esse apagamento”, afirma. “Esse trabalho devolve protagonismo aos próprios povos de Palmares e reafirma o quilombo como símbolo máximo de resistência no Brasil e nas Américas.”
Além de Flávio Moraes, integram a equipe os arqueólogos Onésimo Santos e Daniel Ferreira; o cartógrafo Levy Pereira; os historiadores Bruno Miranda (UFRPE), Felipe Damasceno, Danilo Marques e Zezito Araújo; o antropólogo Vágner Bijagó, do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (Neabi/Ufal – Campus Sertão); o profissional de audiovisual Leandro Pereira; além de estudantes, que terão papel central na formação acadêmica e no trabalho de campo.
O projeto já desperta interesse internacional. Segundo Flávio, veículos nacionais e estrangeiros têm procurado a equipe pela natureza inovadora da pesquisa. “Recentemente, concedemos entrevista a uma mídia alternativa alemã que costuma divulgar grandes projetos arqueológicos, como pesquisas em Stonehenge e no Egito. Isso mostra o alcance do que estamos construindo aqui”, celebra.
A iniciativa também reposiciona o Campus do Sertão da Ufal no cenário científico. “Faço questão de destacar a importância da interiorização da universidade. Esse projeto demonstra que a expansão das instituições federais foi exitosa. O único núcleo de arqueologia da Ufal está hoje no Campus do Sertão. A produção de conhecimento não acontece apenas na capital”, reforça.
Para o futuro, o pesquisador espera que os resultados abram espaço para uma nova compreensão social sobre as vivências do povo negro no Brasil. “Todo o trabalho será realizado em diálogo com as comunidades de terreiro e com a Fundação Cultural Palmares. A arqueologia é, por natureza, uma ciência coletiva. Os méritos precisam ser compartilhados, assim como as decisões”, finaliza.
Na Serra da Barriga, o passado não está enterrado. Ele aguarda, paciente, para ser contado com justiça, ciência e escuta.





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