terça-feira, 29 setembro 2026
Nuvens dispersas
Maceió
22°C
Nuvens dispersas
Nuvens dispersas
Maceió
22°C
Nuvens dispersas

Concentração de Poder e Exclusão Urbana em Maceió: a cidade sob o jugo da especulação imobiliária

por | 14 out, 2025

ESPALHE A NOTÍCIA
Link copiado para o Instagram!

Orla de Maceió | Secom

Por Geraldo de Majella*

A concentração de poder em Maceió tem aumentado nos últimos anos, acompanhando o crescimento da exclusão social. Esse processo resulta de uma convergência de interesses entre o gestor municipal e setores do empresariado — especialmente da construção civil, da Braskem e do transporte urbano — que, direta ou indiretamente, influenciam as decisões da administração pública, muitas vezes sem a necessidade de indicar seus representantes oficiais.

Os tentáculos do empresariado se estendem por quase todas as áreas da prefeitura, que, em muitos casos, funciona como uma extensão das entidades empresariais. A especulação imobiliária, concentrada no litoral Norte da cidade, evidencia a ascensão de uma “elite construtora” que se apropria de áreas estratégicas, enquanto o Plano Diretor permanece propositalmente desatualizado, favorecendo os interesses dessas empresas e incentivando processos de gentrificação e ocupação irregular.

Áreas essenciais como educação e saúde vêm sendo rapidamente privatizadas por meio das organizações sociais. Centenas de milhões de reais das verbas públicas estão sendo direcionadas a esses “novos parceiros”, que não oferecem serviços de qualidade proporcional ao montante recebido, transformando recursos públicos em lucros privados.

O caso da Braskem e dos sucessivos crimes socioambientais na região evidencia o descompasso entre interesses corporativos e proteção do território urbano. O prefeito João Henrique Caldas, ao assinar acordos com ministérios públicos e a Defensoria Pública da União, legitima um quadro em que o poder econômico dita regras sobre o espaço urbano, reduzindo a população local à condição de espectadora de sua própria cidade.

A capitulação institucional diante de grandes grupos empresariais cria precedentes perigosos, abrindo caminho para a instalação de barreiras físicas e simbólicas que dificultam o acesso público a áreas valorizadas como as praias do litoral Norte cada vez mais restritas.

A lógica do “quanto mais se constrói, mais se domina” encontra expressão em dezenas de novos prédios erguendo-se no litoral Norte, com projetos aprovados quase sem contestação. Embora alguns sejam questionados pontualmente pelo Ministério Público, a regra é que a fiscalização seja frouxa, e a cidade se transforme em um território de exclusão para os que não possuem capital para habitar ou usufruir de espaços outrora públicos.

Nessa dinâmica, os empresários imobiliários emergem como os verdadeiros donos da cidade, enquanto o poder público atua como facilitador ou cúmplice das ocupações predatórias.

Outro fator crítico é a mobilidade urbana. O transporte coletivo de Maceió é insuficiente, ineficiente e caro, configurando um desserviço que penaliza diariamente trabalhadores, trabalhadoras e estudantes, os usuários de modo geral.

A ausência de planejamento integrado de mobilidade urbana compromete a economia, encarecendo o deslocamento e diminuindo a produtividade de setores como indústria, comércio e serviços. O resultado é um “anti-desenvolvimento”, onde o crescimento urbano desordenado, aliado à concentração de poder e exclusão social, mina a qualidade de vida e perpetua desigualdades históricas.

Estudos acadêmicos sobre urbanismo e direito à cidade, como os de Raquel Rolnik, Ermínia Maricato, Dilson Ferreira e Regina Lins, indicam que a exclusão urbana não é apenas resultado de carência de legislação, mas de decisões estratégicas que favorecem grupos econômicos específicos. Em Maceió, essa realidade se manifesta de forma clara: o espaço urbano é disputado, mas as regras do jogo são estabelecidas por quem detém poder econômico, enquanto a população perde voz e território.

Reverter esse quadro exige mobilização social, tanto nas ruas quanto nas redes, para garantir a atualização do Plano Diretor, o fortalecimento da fiscalização, a participação social efetiva e a transparência nas decisões sobre o uso do solo.

É necessário criar mecanismos de controle que coíbam a especulação e assegurem que a cidade seja um espaço de todos, e não um território submetido à ambição predatória de poucos. Sem essas medidas, Maceió continuará sendo vilipendiada, e seu desenvolvimento urbano, social e econômico permanecerá subordinado aos interesses concentrados de grupos privados, enquanto a maior parte da população arca com os prejuízos e a exclusão social.

*Historiador e jornalista

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *