Por Claudevan Melo
Dois nomes fundamentais na construção de uma música nordestina com identidade própria, consciência social e potência poética: João do Vale, maranhense migrante e pedreiro que virou compositor consagrado, e José Cândido, alagoano de Santana do Ipanema, letrista de Carcará e de muitas outras canções que traduzem o sertão em palavras e ritmo.
A trajetória de João do Vale (1933–1996), nascido em Pedreiras (MA), é um exemplo de como o talento pode florescer mesmo nas condições mais adversas. Saiu do Nordeste com quase nada, enfrentou uma verdadeira via-crúcis: foi garimpeiro em Minas Gerais, ajudante na Bahia e pedreiro no Rio de Janeiro. Mas foi no Rio que sua verve musical o aproximou de artistas e movimentos culturais de peso.
Em dezembro de 1964, João do Vale participou do histórico Show Opinião, ao lado de Nara Leão e Zé Keti. O espetáculo, com forte teor crítico e social, denunciava as injustiças vividas pelo povo brasileiro e logo foi interpretado pelos militares como uma afronta ao regime. Durante a temporada, Nara Leão — que enfrentava problemas de saúde — foi substituída por uma então iniciante Maria Bethânia, que viria a se tornar uma das maiores vozes da música brasileira.
No palco, João interpretou a emblemática canção Carcará, cuja letra direta e provocadora incomodou a ditadura e acabou sendo censurada. A música, disfarçada de regionalismo, era na verdade um potente hino de resistência, que ecoava a voz dos oprimidos em plena repressão.
O que poucos sabem é que a letra de Carcará nasceu da sensibilidade e inteligência criativa de José Cândido, nascido em 11 de março de 1927, em Santana do Ipanema (AL), e falecido em 25 de fevereiro de 2008, em Aracaju. Poeta de fala simples, criado entre a fauna agreste e os saberes populares, Zé Cândido soube como poucos transformar vivência em arte. Sua parceria com João do Vale foi marcada por uma sintonia rara, onde letra e melodia se encontravam com naturalidade e força.
Além de Carcará, gravada por Maria Bethânia e João do Vale, Zé Cândido foi autor de diversas composições importantes, registradas por grandes nomes da música brasileira. Entre elas:
- Uricuri – interpretada por Nara Leão, com Dorival Caymmi ao violão;
- Vamos Xaxar e Segredos do Sertanejo – gravadas por Marinês;
- Arueira – com Geraldo Vandré;
- Morena do Grotão – por Aldair Soares, Zé Gonzaga, Trio Mossoró e Luiz Wanderley;
- No Pé de Lagedo, Amor Enchucalhado, Pisa Mulata, O Bonde, Sabiá, Quando a Chuva Cai, Sonho Realizado, Menina das Seis e Quarenta, Apelo ao Vento, entre muitas outras.
Mesmo com esse repertório expressivo, José Cândido permanece esquecido em sua terra natal. Os meios de comunicação locais lhe negam espaço, e as novas gerações, em vez de conhecerem sua obra, se empantufam de um “sertanejo pasteurizado” fabricado no Sudeste.
Ainda assim, sua memória resiste. O acervo pessoal do pesquisador Claudevan Melo guarda preciosamente os discos e registros desse grande artista, protegendo sua obra contra o esquecimento.
João do Vale, após décadas de contribuição à cultura popular brasileira, voltou a sua terra natal, Pedreiras, onde faleceu em 6 de dezembro de 1996. Sua volta final ao Maranhão fecha um ciclo que começou com a dureza da migração e terminou com o reconhecimento nacional — ainda que tardio — de sua importância.
Celebrar José Cândido e João do Vale é afirmar que a música nordestina vai muito além de ritmos: é história, denúncia, sabedoria e beleza. E que a cultura popular, quando reconhecida, pode ser semente de liberdade







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