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Por Geraldo de Majella*
A Prefeitura de Maceió se mantém impassível quando o assunto é Carnaval. Organizar três dias de festa em Jaraguá — bairro cujo desenho urbano, com ruas históricas e edificações que dialogam com a ocupação popular do espaço, é ideal para a folia momesca — não estar entre as prioridades do poder público municipal.
O prefeito João Henrique Caldas (JHC), em silêncio sepulcral, vem enterrando a possibilidade de existência do Carnaval na cidade. Não se trata de qualquer evento, mas da festa mais popular do país, expressão cultural que combina tradição, identidade, economia criativa e ocupação democrática das ruas.
Jaraguá é cenário histórico e ideal. Ali, a cidade encontra sua memória portuária, seu casario antigo e sua vocação para grandes encontros populares. Não faltam referências de que o espaço comporta — e estimula — manifestações culturais abertas, plurais e vibrantes. Falta decisão política.
Iniciativas como o Jaraguá Folia e os desfiles de blocos da Liga Carnavalesca demonstram que é possível organizar uma festa popular inclusiva. O êxito dessas experiências, no entanto, depende essencialmente do empenho dos organizadores e dos mais de 100 blocos, que garantem o brilho da festa com alegria e bom humor. O que se vê é a sociedade civil assumindo responsabilidades que deveriam ser compartilhadas com o poder público.
Não é necessário reafirmar que Maceió já teve Carnaval de massa, espalhado pelos bairros, pelas ruas centrais e pelo próprio Jaraguá. A memória coletiva ainda guarda o tempo em que a cidade pulsava ao som dos blocos e das orquestras, mobilizando moradores e visitantes em celebração aberta e democrática.
Hoje, contudo, consolida-se um pacto silencioso. Prefeitura e hoteleiros selaram o que pode ser compreendido como um acordo contrário à realização do Carnaval em Maceió. O argumento que sustenta essa postura revela sua lógica: transformar o período carnavalesco em vitrine de “tranquilidade”, esvaziando as ruas para preservar uma determinada imagem de destino turístico.
Não por acaso, ganha espaço na mídia a narrativa de que “a hotelaria em Alagoas se consolida como refúgio de tranquilidade durante o Carnaval”. Enquanto isso, a população que dispõe de alguma possibilidade financeira desloca seu consumo cultural e turístico para outras cidades onde o Carnaval é valorizado como patrimônio e motor econômico — Recife, Rio de Janeiro, Salvador, Olinda, Belo Horizonte — ou mesmo para destinos no interior alagoano, como Barra de São Miguel, Maragogi e Paripueira.
O que está em jogo não é apenas uma festa, mas a concepção de cidade. Quando um segmento econômico mantém domínio sobre o poder público, define-se não apenas a agenda cultural, mas também quem pode ocupar as ruas e em que condições. O Carnaval, por sua natureza popular, tensiona esse modelo.
Se nada muda, a lápide simbólica já está pronta: aqui jaz o Carnaval de Maceió — não por falta de tradição, nem por ausência de povo, mas por decisão política.
*Historiador e jornalista





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