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“Renasce Salgadinho é uma grande praça, não uma recuperação ambiental completa”, diz professor da Ufal

por | 20 jul, 2026

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O projeto Renasce Salgadinho, apresentado pela Prefeitura de Maceió como uma obra de recuperação ambiental, não enfrentou as causas estruturais da degradação do Riacho Salgadinho. A avaliação é do arquiteto e urbanista Dilson Ferreira, professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Para ele, a intervenção melhorou o espaço urbano, mas deixou sem solução problemas como saneamento básico, drenagem e controle da poluição em toda a bacia hidrográfica.

“O Renasce Salgadinho é uma grande praça, não uma obra completa de recuperação ambiental. É uma intervenção urbanística que melhorou a região, mas priorizou a requalificação do espaço público e menos o saneamento. Não enfrentou as principais causas da degradação do riacho: a poluição, a falta de saneamento e a inexistência de limpeza urbana adequada nos fundos de vale e nas grotas da bacia. Quando chove, tudo isso chega à foz”, afirmou.

Lançado em 2021 com orçamento superior a R$ 76 milhões, o Renasce Salgadinho teve o custo ampliado durante a execução. A Prefeitura de Maceió informa gastos de aproximadamente R$ 182 milhões — um aumento de cerca de 140% em relação ao valor inicialmente previsto.

Arthur Celso (@arthurcelsofotografia)

Para o professor, as chuvas expõem as limitações da intervenção e evidenciam que os problemas ambientais da Bacia do Reginaldo permanecem sem solução.

“Quando chove, a falta de saneamento e de coleta de lixo nas grotas e nos bairros da bacia desemboca na foz do riacho, na Praia da Avenida. O esgoto, o lixo e os demais resíduos transportados pelos cursos d’água continuam chegando ao Salgadinho e ao mar”, explicou.

Na avaliação de Dilson Ferreira, uma recuperação ambiental efetiva exige ações em toda a bacia hidrográfica, e não apenas no trecho urbanizado. Entre as medidas necessárias, ele cita ampliação do tratamento de esgoto, melhoria da drenagem urbana, eliminação dos lançamentos clandestinos, desassoreamento contínuo até as antigas nascentes, recuperação da mata ciliar e execução das ações previstas no Plano Municipal de Saneamento Básico de Maceió.

“Uma recuperação ambiental efetiva precisa considerar toda a bacia hidrográfica, e não apenas o trecho urbanizado. Não basta requalificar as margens. Sem saneamento, controle da poluição e retirada permanente dos resíduos nos bairros, principalmente nos fundos de vale e nas áreas de preservação ambiental, o riacho continuará recebendo esgoto e lixo”, destacou.

Prefeitura culpa moradores

O professor também rejeita a responsabilização dos moradores das grotas e dos fundos de vale pela degradação do riacho.

“Não adianta culpar o povo. Como responsabilizar um morador que vive em um vale degradado, sem saneamento e sem limpeza urbana regular?”, questionou.

Apesar das críticas, Dilson Ferreira reconhece que a intervenção trouxe melhorias urbanísticas e criou um novo espaço público para a população. Ele ressalta, porém, que o resultado precisa ser analisado diante do volume de recursos investidos.

“Essencialmente, trata-se de uma grande praça. Qualquer obra de urbanização é necessária, beneficia a região e melhora a vida das pessoas, que têm razão ao agradecer pelo novo espaço público. O problema é que o custo foi elevadíssimo e a intervenção não enfrentou completamente as causas estruturais da degradação ambiental, como tem sido propagado”, avaliou.

Outro ponto levantado pelo professor é o impacto da obra sobre a manutenção do riacho. Segundo ele, a instalação das lajes e dos guarda-corpos dificultou o acesso de máquinas para retirada da lama e dos resíduos, tornando a limpeza mais complexa e onerosa.

“Antes, era possível colocar uma retroescavadeira no local para retirar a lama e os resíduos acumulados. Com a instalação dos extensos guarda-corpos de vidro e das lajes, a entrada de máquinas ficou mais difícil”, explicou.

Equipamentos de pequeno porte, como mini retroescavadeiras, agora precisam ser içados para dentro do canal. Também devem ter dimensões e peso reduzidos para evitar danos às lajes implantadas sobre o leito do riacho.

“Na prática, a manutenção passou a depender muito mais do trabalho manual e ficou significativamente mais cara. Os resíduos são colocados em sacos e precisam ser içados, um a um, para fora do riacho”, afirmou.

Trabalhadores expostos à poluição

Dilson Ferreira também chama atenção para as condições enfrentadas pelos trabalhadores responsáveis pela limpeza do canal.

“Mesmo com equipamentos de proteção individual, dentro das exigências legais, e com o acompanhamento dos técnicos de segurança do trabalho, os funcionários continuam expostos, em algum grau, à poluição, à lama e ao esgoto, principalmente durante os períodos de chuva”, alertou.

Dilson Ferreira

O professor afirma ainda que os sistemas implantados para melhoria da qualidade da água apresentam limitações durante os períodos chuvosos.

“Quando chove, toda a deficiência sanitária das áreas da bacia que não receberam intervenções vem à tona e desemboca na Avenida da Paz. O sistema de bombeamento das estações não possui capacidade para receber e encaminhar ao emissário todo o volume de água e resíduos transportados pela bacia durante as chuvas”, explicou.

Para Dilson Ferreira, a população ganhou um novo espaço de convivência e uma obra de requalificação urbana, mas isso não significa que o problema ambiental do Riacho Salgadinho tenha sido solucionado.

“Sem enfrentar o saneamento, a drenagem, a poluição, o assoreamento e a manutenção de toda a bacia, o Riacho Salgadinho continuará degradado. O projeto melhorou a paisagem e o espaço público, mas não pode ser apresentado como uma recuperação ambiental completa”, concluiu.

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