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A ditadura que ainda se esconde nos arquivos: quem controla os documentos controla a memória

por | 6 maio, 2026

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Por Geraldo de Majella*

Desde 26 de abril, o ICL Notícias tornou público o projeto “Bandidos de Farda”, resultado de sete meses de apuração. Não se trata apenas de uma série de reportagens, acompanhada de um documentário com estreia prevista para 17 de maio, mas da exposição de um circuito oculto de produção e retenção de informações sobre a repressão.

No centro desse trabalho está o acervo reunido pelo coronel Cyro Etchegoyen: 23 pastas e cerca de 3 mil páginas de documentos públicos inéditos do Exército, retirados ilegalmente e mantidos sob sua guarda até sua morte, quando passaram a outro militar. Parte desse conjunto foi entregue, em outubro de 2025, ao Instituto Fernando Santa Cruz — idealizado por Felipe Santa Cruz, filho do desaparecido político Fernando Santa Cruz — e, em fevereiro de 2026, outra parcela chegou à jornalista Juliana Dal Piva, pela mesma fonte, mantida em sigilo.

A série, coordenada pela jornalista e escritora Juliana Dal Piva, com reportagens de Igor Mello, Chico Otávio e Schirlei Alves, recoloca em circulação um problema que jamais foi plenamente resolvido: o acesso aos arquivos da ditadura militar. Seu ponto de partida — documentos mantidos fora dos registros oficiais — não apenas amplia o conhecimento sobre o funcionamento da repressão, mas também desloca o foco do debate. Já não se trata de perguntar o que desapareceu, mas de compreender o que foi deliberadamente mantido fora do alcance do público.

É nesse deslocamento que o trabalho de Juliana Dal Piva e dos demais jornalistas dialoga com a interpretação do jornalista mineiro Lucas Figueiredo, autor de Lugar Nenhum: Militares e civis na ocultação dos documentos da ditadura (Companhia das Letras, 2015). Ao investigar a política de arquivos no Brasil, Figueiredo formula uma tese incômoda: o principal obstáculo à compreensão do período não é a ausência de documentos, mas o controle exercido sobre eles. Segundo o autor, os registros mais sensíveis — sobretudo os produzidos pelos órgãos de inteligência das Forças Armadas — não foram eliminados. Foram, ao contrário, preservados sob gestão restrita, retidos e sistematicamente subtraídos da esfera pública.

A convergência entre os dois trabalhos não é apenas temática, mas estrutural. A série do ICL oferece evidência empírica contemporânea para essa formulação: documentos centrais da repressão não apenas existem, como podem permanecer dispersos em circuitos privados, fora dos mecanismos institucionais de guarda e transparência. O acervo que sustenta a investigação sugere que o chamado “núcleo duro” da documentação — registros operacionais, cadeias de comando, informações sobre perseguições — jamais foi plenamente incorporado ao domínio público.

Essa constatação permite reler o processo brasileiro de abertura de arquivos sem as ilusões que o acompanharam. Houve avanços, sobretudo na disponibilização de documentos de órgãos civis e policiais, que possibilitaram reconstruções importantes. Mas o movimento foi seletivo. Tanto o estudo de Figueiredo quanto a apuração jornalística indicam que o material mais sensível permaneceu protegido — seja por decisões institucionais, seja pela própria dispersão dos acervos.

O ponto de contato decisivo está aí: ambos deslocam o debate da ausência para o controle e, agora, para a dispersão dos documentos. Se Lugar Nenhum demonstra a existência de uma política de ocultação, “Bandidos de Farda” expõe uma de suas consequências mais concretas — a circulação de arquivos fora do Estado, preservados em espaços privados e acessíveis apenas por vias excepcionais.

Ao trazer esse material à luz, a série não apenas amplia o campo do conhecimento histórico. Ela tensiona os limites da própria abertura já realizada no país. A história da ditadura brasileira permanece incompleta não por falta de registros, mas porque parte significativa deles segue fora do alcance público — sob sigilo institucional ou dispersa em arquivos que, até recentemente, estavam, de forma nada metafórica, em “lugar nenhum”.

*Historiador e jornalista

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