Durante anos, a contratação de artistas por prefeituras brasileiras foi tratada como uma tradição ligada às festas populares. Mas uma investigação inédita do portal De Olho nos Ruralistas revela que esse mercado se transformou em uma engrenagem bilionária que conecta dinheiro público, grandes produtoras, casas de apostas, agronegócio e influência política.
Resultado de seis meses de investigação, o relatório “Farras: como os shows com dinheiro público conectam artistas, bets, política e agronegócio” analisou mais de 20 mil contratos firmados entre janeiro de 2024 e março de 2026 e identificou um universo de gastos muito superior ao que vinha sendo divulgado.
Segundo o estudo, 100 artistas receberam, individualmente, pelo menos R$ 25 milhões em cachês pagos por prefeituras e governos estaduais. Somados, esses contratos ultrapassam R$ 5 bilhões.
A concentração é ainda maior entre os principais beneficiados. Apenas 40 artistas superaram a marca de R$ 50 milhões em contratos públicos, acumulando R$ 3,08 bilhões em pouco mais de dois anos.
O montante chama atenção por se aproximar do recorde anual de captação da Lei Rouanet, que movimentou R$ 3,41 bilhões em 2025. A diferença, destaca o relatório, é que, enquanto os recursos da Lei Rouanet financiam milhares de projetos culturais de diversas áreas por meio de renúncia fiscal, os cachês dos shows analisados saem diretamente dos cofres públicos e concentram-se exclusivamente em apresentações musicais.
Mercado dominado
A investigação aponta que o dinheiro não está pulverizado entre centenas de empresários.
Pelo contrário.
Cinco produtoras nordestinas concentram R$ 2,42 bilhões em contratos públicos, praticamente metade de todo o volume movimentado pelos 100 artistas mais contratados.
O levantamento identifica um verdadeiro oligopólio liderado por empresas ligadas a grandes nomes da música brasileira.
A principal delas é a Camarote Shows, fundada por Wesley Safadão e seu irmão Yvens Watila Oliveira. Apenas os artistas do seu casting receberam R$ 701 milhões, valor que se aproxima de R$ 1 bilhão quando considerados todos os contratos acima de R$ 10 milhões.
Na sequência aparecem:
- Vybbe, do cantor Xand Avião, com R$ 522 milhões;
- Tapajós, ligada aos empresários Neto Tapajós e Geraldo Estrela Neto, com R$ 385 milhões;
- Full, com R$ 338 milhões;
- M&P, fundada pelo cantor Pablo, com R$ 251 milhões.
Segundo o relatório, essas cinco empresas controlam 21 dos 40 artistas mais contratados do país e representam oito dos dez maiores recebedores de recursos públicos destinados a shows.
A ascensão meteórica de Natanzinho
O maior fenômeno identificado pela pesquisa é o cantor sergipano Natanzinho Lima.
Com apenas 23 anos, ele ocupa o primeiro lugar entre os artistas mais contratados por administrações públicas.
Desde janeiro de 2024 foram registrados 336 shows públicos, que renderam aproximadamente R$ 158 milhões em contratos — média de uma apresentação a cada dois dias e meio.
O crescimento foi vertiginoso.
No início de 2024, seu cachê era de R$ 25 mil. Poucos meses depois passou a cobrar R$ 350 mil por apresentação. Em 2026, um único show contratado pela Prefeitura de Mucajaí, em Roraima, alcançou R$ 1 milhão.
O relatório atribui essa expansão ao ingresso do artista na Camarote Shows, empresa comandada por Wesley Safadão.
Uma caixa-preta dos contratos públicos
Um dos aspectos mais relevantes da investigação é a descoberta de falhas significativas na transparência das contratações.
Embora o Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP) seja a principal plataforma oficial de divulgação desses contratos, os pesquisadores constataram que quase 40% dos documentos simplesmente não estavam registrados no sistema.
Para reconstruir o cenário real, a equipe cruzou informações obtidas em tribunais de contas, Ministérios Públicos estaduais e centenas de portais municipais de transparência.
O caso do cantor Zezé Di Camargo tornou-se emblemático.
Inicialmente divulgado pela imprensa como beneficiário de cerca de R$ 20 milhões em contratos públicos, o levantamento mostrou que o valor efetivamente recebido chegou a R$ 73 milhões, após a localização de contratos ausentes das bases nacionais.
Ao todo, os pesquisadores identificaram 7.412 shows realizados pelos 40 artistas mais contratados desde 2024.
Desse total, apenas 63% apareciam no sistema oficial.
Os demais precisaram ser localizados manualmente.
Muito além da música
Para os autores do estudo, reduzir a discussão ao valor dos cachês é insuficiente.
O relatório sustenta que os shows públicos fazem parte de uma cadeia econômica muito mais ampla, envolvendo produtoras, patrocinadores privados, casas de apostas esportivas, agronegócio e articulações políticas que ajudam a movimentar bilhões de reais todos os anos.
A investigação conclui que compreender esse mercado exige olhar não apenas para os artistas, mas para a estrutura empresarial que organiza as turnês, negocia contratos com administrações públicas e concentra boa parte dos recursos.
O relatório marca ainda o lançamento da editoria “De Olho no Dinheiro”, criada pelo portal De Olho nos Ruralistas para acompanhar gastos públicos, rastrear fluxos financeiros e aprofundar investigações sobre a relação entre dinheiro, poder político e interesses econômicos no Brasil.







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