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“Consórcio da Paz” que prometia segurança dispara as mortes: 5 dos 6 estados sob governadores apoiadores registram aumento da letalidade policial

por | 2 nov, 2025

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Foto: Divulgação

Uma investigação da Agência Pública revela que, entre os seis estados liderados por governadores que aderiram ao autodenominado Consórcio da Paz, cinco registraram aumento no número de mortes causadas por ações policiais ao longo de seus mandatos. O consórcio foi anunciado em 30 de outubro de 2025, após uma megaoperação no Rio de Janeiro que deixou mais de 120 mortos e buscava integrar ações de combate ao crime organizado entre estados.

Entre os casos mais destacados está o estado de Santa Catarina, onde o governador Jorginho Mello (PL) viu o número de mortes por ação policial subir de 44, em 2022, para 79, em 2023, repetindo o mesmo valor em 2024. “Que o Rio de Janeiro e o governador Castro mantenham posição firme contra o crime”, publicou Mello nas redes sociais. Em Goiás, o governo de Ronaldo Caiado (União Brasil) registrou índices entre 515 e 614 mortes por ano desde 2019 — todos maiores que o total de 2018.

No Mato Grosso do Sul, sob o comando de Eduardo Riedel (PP), os registros saltaram de 51 mortes em 2022 para 133 no primeiro ano de mandato, antes de recuar para 86 em 2024. O Distrito Federal, sob a gestão de Ibaneis Rocha (MDB), também apresentou crescimento nas mortes por agentes de segurança, com números superiores aos dos cinco anos anteriores. Já em São Paulo, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) registrou aumento no primeiro ano de mandato em relação a 2022, repetiu crescimento em 2023 durante a Operação Escudo. Entretanto, foi o único estado entre os seis pesquisados a apresentar alguma queda recente nas letalidades, segundo resposta oficial.

“A maioria dos governadores que integram o autoproclamado ‘Consórcio da Paz’ registrou um aumento nas mortes causadas por policiais nos respectivos estados durante a sua gestão”, afirmam os autores da reportagem da Agência Pública. O grupo, que se apresenta como estratégia de cooperação interestadual para compartilhamento de inteligência e recursos no combate ao crime organizado, agora enfrenta críticas por aparentemente impulsionar uma política de segurança baseada no confronto.

Em nota encaminhada ao veículo de imprensa, o governo de São Paulo destaca que realizou redução de 5% nos casos de morte em intervenção policial (MDIP) no total do estado e 6% apenas na capital no acumulado entre janeiro e setembro de 2025. Ainda assim, a maioria dos outros estados da aliança mostra cenário contrário à retórica de “paz” que animou o lançamento do consórcio.

Especialistas ouvidos pela reportagem advertem que a escolha de termos bélicos, como “guerra ao crime”, e a formação de blocos estatais para enfrentamento policial podem produzir efeitos perversos — legitimar a força acima do direito, reduzir transparência e proteção da população vulnerável. “Quando você pauta o debate na ideia de guerra, você valida ações que barbarizam todo um território”, observa o pesquisador Jonas Pacheco.

O fato de cinco dos seis estados terem aumento nas mortes por ação policial enquanto participam de uma frente que se apresenta como antídoto à violência leva a questionar o modelo adotado. A reportagem da Agência Pública documenta como o crescimento da letalidade não parece ser acaso, mas sintoma de uma estratégia de segurança pública baseada na repressão agressiva.

Enquanto isso, a base estatística revela que o discurso de integração entre estados na segurança pública — via alianças como o “Consórcio da Paz” — ainda não traduziu em resultados menos letais. Pelo contrário: mostra que “combate ao crime” pode, inadvertidamente, se tornar sinônimo de escalada de mortes em operações policiais, especialmente em territórios marcados por vulnerabilidade social.

O desafio, segundo observadores, é grande: não basta anunciar consórcios e pactos‑de‑guerra. É necessário investir em investigação rigorosa, transparência, mecanismos de controle externo e políticas que fortaleçam o direito à vida. A reportagem da Agência Pública coloca justamente esse gargalo em evidência: os números não mentem, e o “Consórcio da Paz” até agora não parece ser uma rota de paz — pelo menos não na forma em que foi posta em prática.

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