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“Governadores transformam ‘guerra ao crime’ em espetáculo: retórica ameaça garantias civis”, avaliam especialistas

por | 3 nov, 2025

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© Fernando Frazão/Agência Brasil

Em meio às recentes operações policiais nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, a adoção de termos como “narcoterrorismo”, “narcomilícia” e “guerra ao crime” por governadores e secretários de segurança de diversos estados brasileiros vem provocando críticas incisivas de sociólogos, cientistas políticos e especialistas em segurança pública.

Para o sociólogo Ignacio Cano, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), o uso de “narcoterrorismo” carrega graves distorções. “Terrorismo normalmente é associado a objetivos políticos. Um narcoterrorista não teria nenhuma motivação política. O objetivo é o mesmo de todo criminoso, que é o lucro. O termo é uma contradição em si mesmo”, afirma.

Ele acrescenta: “Os governadores erraram no nome. Deveria se chamar Consórcio da Morte, porque é isso que eles estão propondo. Certamente não é a paz”.

O termo “guerra”, amplamente adotado na retórica oficial, também é alvo de debate. Segundo o pesquisador Jonas Pacheco, da Rede de Observatórios da Segurança, “quando você pauta o debate na ideia de guerra, você valida ações que barbarizam todo um território. Quem é o inimigo nessa guerra? É o traficante que está na Faria Lima lavando o dinheiro? Não, é o traficante que está na favela. É o pobre e o preto que moram em territórios de extrema vulnerabilização e precarização”.

Especialistas alertam que essas escolhas semânticas não são neutras. Elas abrem caminho para mais poder, menos controle, ampliação de orçamentos e redução das garantias processuais — tudo sob o pretexto de uma emergência de segurança. A antropóloga Jacqueline Muniz, do departamento de segurança pública da Universidade Federal Fluminense (UFF), critica o espetáculo: “O objetivo é trazer a guerra para dentro das cidades. E nada melhor do que uma guerra contra o crime. Mas não se trata de combater crime nenhum. Se trata de produzir repressão e espetáculo. Se queremos resolver, temos que mudar também essa linguagem”.

Há ainda o alerta para impactos sobre a democracia. Cano lembra que: “Segurança pública é para gerar segurança, não é para matar. Uso da força deve respeitar as devidas normativas legais. Não é um fim em si mesmo. O fim é gerar segurança. O pacto social prevê que o Estado deve garantir a preservação da vida.”

Além disso, as análises destacam que retóricas como “narcoterrorismo” e “consórcio da paz” — este último reunindo sete governadores — funcionam como instrumentos simbólicos para justificar intervenções mais agressivas e alinhamentos internacionais. “Uma forma de os Estados Unidos intervirem de forma mais efetiva no nosso território é justamente apelar para o que os norte-americanos têmia historicamente, principalmente depois do 11 de setembro, que é a questão do terrorismo”, aponta Pacheco.

Para os especialistas, o uso carregado de linguagem bélica e punitiva encobre a falta de políticas de base: prevenção, inclusão, educação, saneamento, emprego. Sem isso, avaliam, a segurança pública vira espetáculo e não solução. “Se a sociedade autoriza a polícia a agir sem controles e parâmetros legais, sem fiscalização do Ministério Público, todos nós estamos em risco. Se as pessoas acham que só os moradores do Alemão e da Penha vão sofrer as consequências, estão muito enganadas”, completa Cano.

A discussão coloca um espelho para o país: até que ponto o discurso de “combate ao crime” reflete estratégia efetiva ou serve para alimentar narrativas autoritárias? Os questionamentos agora passam pelos gabinetes, nos corredores da segurança pública e entre os especialistas, que pedem com veemência uma mudança: mais estrutura e menos retórica.

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