A coletânea Igreja Subversiva? Agentes e movimentos católicos na Ditadura Militar, Golpe e luta de classes no Brasil, organizada pela professora Irinéia Maria Franco dos Santos (EDUFAL, 2024, 469 páginas), é uma contribuição relevante para os estudos sobre a intersecção entre religião, repressão e política nas décadas de 1960 a 1980 em Alagoas. A obra reúne onze capítulos escritos por dez pesquisadores vinculados ao Laboratório de História e Estado das Religiões (LHiER), da Universidade Federal de Alagoas, e de outras instituições brasileiras.
A partir de extensa pesquisa documental, especialmente com base em acervos da Delegacia de Ordem Política Social e Econômica (DOPSE) e no Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN), os estudos reunidos expõem, de maneira marcante, a vigilância sistemática exercida pelos órgãos de informação sobre setores da Igreja Católica, mesmo em contextos em que essa mesma instituição atuava como uma das forças mais ativas em apoio ao golpe militar de 1964. No caso de Alagoas, revelado com profundidade por esta obra, a Igreja Católica, historicamente conservadora e anticomunista, não escapou do olhar persecutório do aparato repressivo.
As análises de figuras como os padres Teófanes Augusto de Araújo Barros, Humberto Araújo Cavalcanti, Salomão de Almeida Barros Lima, Hidelbrando Veríssimo Guimarães e Luiz de Oliveira Santos revelam não apenas trajetórias pessoais diante do autoritarismo, mas também redes de relações políticas e sociais que complexificam o entendimento sobre o posicionamento da Igreja em um cenário de crescente repressão e silenciamento das vozes dissonantes.
Um dos méritos do livro é não apresentar a Igreja Católica como aliada incondicional do regime, mas sim demonstrar suas contradições internas, disputas de poder e, sobretudo, a atuação política — ainda que muitas vezes discreta — de religiosos comprometidos com os pobres, com os direitos humanos e com uma visão crítica da ordem social vigente.
Trata-se, portanto, de uma obra que alarga o campo da historiografia ao lançar luz sobre um tema ainda insuficientemente abordado em Alagoas. Ao fazer isso, Igreja Subversiva? consolida-se como referência para pesquisadores das áreas de História, Ciências Sociais, Estudos da Religião e Direitos Humanos, além de oferecer ao público em geral uma compreensão mais profunda e matizada sobre o papel da Igreja Católica em um dos períodos mais autoritários da história nacional.
Com rigor analítico, densidade interpretativa e sensibilidade política, o livro organizado por Irinéia Maria Franco dos Santos convida o leitor a revisitar as relações entre religião e política à luz de documentos e histórias que resistiram ao apagamento.
O ganho para os especialistas no assunto, leitores comuns e, principalmente, as famílias dos religiosos atingidos pelos órgãos de inteligência do Estado brasileiro — antes e depois do golpe e durante a ditadura militar —, que invadiram a vida privada e religiosa dessas pessoas, terão a oportunidade de saber, mesmo com o viés policial e preconceituoso, o que agentes do Estado registraram sobre suas atividades e suas vidas pessoais e familiares, só foi possível graças ao trabalho abnegado desses pesquisadores e pesquisadoras.






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