Em jantar reservado na casa do ex-governador João Doria, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), criticou a decisão do presidente Lula de recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF) para tentar reverter a derrubada do decreto que aumentava a alíquota do IOF sobre aplicações no exterior. Segundo Motta, o recurso ao Judiciário “pode ser caminho ruim adotado para criar um confronto entre poderes, no caso Legislativo e Supremo Tribunal Federal”.
O encontro reuniu 65 empresários de setores como serviços, comércio, indústria, tecnologia e bancos. Ao final, Motta discursou em tom político, cercado por nomes influentes: João Doria, o vice-governador paulista Felicio Ramuth, o ex-ministro Henrique Meirelles, o ex-governador Rodrigo Garcia, entre outros. O prefeito da capital, Ricardo Nunes, passou rapidamente e ficou apenas dez minutos.
A fala de Motta, no entanto, escancara uma inversão dos fatos. Foi ele mesmo quem pautou e aprovou o projeto que anulou o decreto presidencial — o que deu origem à crise política. Agora, ao acusar o governo de provocar tensão com o STF, tenta deslocar a responsabilidade e, ao mesmo tempo, lança um recado direto ao empresariado presente: o governo não terá vida fácil caso insista na taxação dos super-ricos, especialmente dos lucros e dividendos enviados ao exterior.
Segundo a colunista do UOL Amanda Klein, que revelou os bastidores do jantar, um empresário presente resumiu o tom de Motta: “Ele fez uma crítica educada e pontual ao governo, mas afirmou, sim, que recorrer ao STF contra decisão do Congresso vai afastar ainda mais Executivo e Legislativo”.
Nos bastidores, ficou claro que Hugo Motta acenou para o setor financeiro e produtivo com a promessa de tensionar ainda mais a relação com o Planalto, caso Lula não recue. Ele mencionou que pode pautar novos PDLs (Projetos de Decreto Legislativo) para revogar medidas do Executivo, sem especificar quais. Mas deixou uma exceção: o projeto que isenta do Imposto de Renda quem ganha até R$ 5 mil, relatado por Arthur Lira, será aprovado.
A ameaça é concreta. Segundo o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), há mais de 500 PDLs tramitando na Câmara e outros 80 no Senado. Em um cenário de confronto, esse arsenal legislativo pode ser usado para impor novas derrotas ao governo.
Ao criticar a judicialização da política por parte do Executivo, Motta tenta disfarçar sua própria estratégia de confronto e dá uma senha ao empresariado: o Congresso está disposto a barrar medidas que mexam com os interesses do mercado financeiro, mesmo que isso acirre a instabilidade institucional.





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