A realidade social e política, muitas vezes, não é visível a olho nu. Pode parecer estranho por julgarmos que conhecemos e dominamos os mecanismos de como o Estado e a sociedade funcionam pelo fato de participarmos ativamente dela.
O mecanismo de dominação das instituições do Estado, no caso especifico, o Poder Legislativo municipal, ignorado e tratado como se fosse de menor monta, é aterrorizador.
A primeira dificuldade é compreender como as instituições funcionam, a quem servem, como servem e quem ganha ou aufere vantagens. Respondidas essas perguntas, encontraremos o caminho da mina.
Quando acontece um crime, o delegado de polícia faz a pergunta clássica: a quem interessa o crime? Daí para a frente, tudo vai girar ao redor dessa pergunta. O mesmo pode e deve ser feito em relação aos vereadores e vereadoras que, em tese, representam a população. Repetindo: em tese!
A origem social dos 25 vereadores e vereadoras é a classe média, uma parcela; a outra tem origem em bairros periféricos, mas que ascenderam socialmente no exercício do mandato.
Não é exagero identificá-los como protótipo de uma nova classe social que enriquecem, muitos deles, com as benesses geradas pelo poder.
A Câmara Municipal vem se tornando um entreposto do lobby da construção civil, empresários de transportes, da limpeza urbana, sempre onerosa para os cofres públicos.
A ascensão social visível, tanto pelos gastos monumentais patrocinados pelo erário, como pelas mudanças de hábito e condutas de muitos que não tinham, anteriormente, renda suficiente para ostentar carrões, apartamentos, viagens, noitadas em restaurantes.
O novo símbolo de status social tem como modelo a classe média da orla de Maceió. Os números disponíveis no Portal da Transparência pode não ser a prova do crime, mas, é a constatação do escárnio com a população empobrecida da cidade de Maceió.
A capital tem perto de 1 milhão de habitantes e um orçamento público bilionário, que tem sido instrumentalizado para garantir as benesses irrefreadas dos edis. O Plano Diretor é outro documento relevante, que estabelece normas e regras de convivência para a cidade. Porém, o empresariado tem imposto as suas condições antagônicas aos interesses coletivos da população.
O conjunto da Câmara é “parceira” dos interesses privados sobre os interesses da população e dos interesses públicos, que deveriam ser prioritários. Ao desenho do Plano Diretor ardilosamente armado, se não houver resistência da população, a exclusão e a apropriação das áreas de convivência coletivas como o litoral se consumarão por obra e graça dos vereadores. Ressalto que há exceções, poucas, mas, existem.
As provas materiais vão aparecendo com o silêncio da Câmara Municipal. Está em vigor o pacto de silêncio onde uma montanha de dinheiro vem sendo consumida diante da mesa posta e sem que haja, no mínimo, indignação diante da fome, do desemprego e da miséria de mais de dois terços da população de Maceió.
Os vereadores se acham os donos do poder e não querem que o povo saiba o que cada um anda fazendo. O Portal da Transparência é uma conquista, mas é necessário e urgente que o Ministério Público, como guardião da cidadania, analise com acuidade as informações publicizadas pela Mesa Diretora.
Os movimentos sociais não podem ficar inertes, é fundamental entender que a Câmara de Vereadores é um dos algozes da sociedade maceioense. Consumir 106 milhões em 2023, de forma irresponsável, é um atentado à dignidade da população e dos contribuintes, é um crime contra a cidade.
Afinal, a quem interessa o crime? Essa pergunta vale R$ 106 milhões.








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