Por Geraldo de Majella*
As mensagens tornadas públicas pelo STF revelam articulações de Jair Bolsonaro, seus filhos e aliados da extrema-direita, no Brasil e nos Estados Unidos, para transformar o chamado tarifaço em instrumento de coação política. O episódio ilumina dois aspectos centrais da política brasileira atual: a fragmentação do campo da extrema-direita e da direita. Trata-se de um movimento que combina oportunismo com fragilidade estratégica.
O efeito imediato foi a queda da popularidade de Jair Bolsonaro, como indica a mais recente pesquisa Quest. O tarifaço é um problema real para a economia brasileira, afetando empresas e trabalhadores diretamente. Contudo, a percepção majoritária da sociedade é de que os próprios Bolsonaros são responsáveis por esse cenário, articulado inclusive em diálogo com Donald Trump, numa tentativa desesperada de salvar Jair Bolsonaro do julgamento no STF. Apostaram todas as fichas no caos social e numa ruptura institucional. Perderam.
No plano institucional, as mensagens reforçam a percepção de que Bolsonaro tenta instrumentalizar crises sociais como forma de coação contra os poderes da República. Esse movimento tende a endurecer a resposta do Judiciário e ampliar ainda mais o isolamento político do ex-presidente. Em vez de abrir espaço para uma anistia, a estratégia acelera sua perda de apoio na sociedade, que se refletirá também no Congresso.
O episódio, além de representar um atentado à soberania nacional, produziu um efeito contrário ao esperado pela extrema-direita: uniu amplos setores da sociedade em defesa da soberania, da economia nacional, dos empregos e da democracia. Ao mesmo tempo, expôs fissuras no campo conservador. A extrema-direita mantém-se fiel ao projeto personalista de Bolsonaro, enquanto a direita tradicional — antes engolfada pelo bolsonarismo — movimenta-se nos bastidores em busca de alternativas, como Tarcísio de Freitas, Ratinho Jr. e Romeu Zema, nomes cotados para disputar a próxima eleição presidencial contra Lula.
Nesse cenário, o presidente da República estruturou um grupo eficiente para negociar com empresários e buscar interlocução com o governo dos Estados Unidos em instâncias possíveis, articulando-se também com lideranças políticas e empresariais norte-americanas. Lula, por sua vez, em meio à crise, tem se projetado como liderança política capaz de conjugar firmeza na defesa institucional com pragmatismo nas negociações com o governo Trump.
Em síntese, o uso do tarifaço como instrumento de chantagem política revela os limites do projeto bolsonarista. Reduzido à lógica da autopreservação, ele se afasta das demandas populares, aprofunda divisões internas e enfraquece sua capacidade de articulação no médio e longo prazo. Isso significa uma reconfiguração do equilíbrio de forças no campo conservador: Bolsonaro deixa de ser o ator central, perde o papel simbólico de condutor e, como na metáfora popular, o bode sai da sala — abrindo espaço para que políticos profissionais reassumam o comando.
*Historiador e jornalista






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