2 de agosto de 2025 8:46 por Da Redação

Por Carlos Vargas*
Em 2019, muitos de nós celebrámos, com justificada alegria, o anúncio formal de que, nesse ano, o Prémio Camões seria entregue a Francisco Buarque de Hollanda. Tal distinção era mais do que merecida. Não só por causa da sua obra literária consolidada essencialmente a partir dos anos 1990, mas também pelo seu extraordinário trabalho como compositor e letrista, desde 1966 – não sei qual é a ordem correcta para quem compõe música com palavras ou pensa palavras musicadas. Relevante também para esta distinção literária terá sido, seguramente, a sua consistente cidadania activa na defesa dos valores da liberdade, da democracia e do direito inalienável do cidadão à palavra.
O autor da Ópera do Malandro (1978), de Budapeste (2003) e de O Irmão Alemão (2014), entre outras obras, é uma referência contemporânea da cultura brasileira, não só através da riqueza sempre surpreendente da sua música popular, mas também por via de uma permanente reinvenção desta língua partilhada a que chamamos portuguesa.

Chico Buarque é um cidadão do mundo, cosmopolita e poliglota, apaixonado pelo futebol – o Fluminense! – e, claro, pelo samba – “Samba de Orly”, com Toquinho e Vinícius de Moraes, no disco Construção, de 1971. Ao longo da sua vida, Chico tem sido um lutador convicto contra as injustiças, as ditaduras e as desigualdades, realidades que tantas vezes denunciou: “Pede perdão pela omissão/ Um tanto forçada/ Mas não diga nada/ Que me viu chorando/ E pros da pesada/ Diz que eu vou levando”.
Chico Buarque de Hollanda, referência extraordinária para a minha geração deste lado do Atlântico, a par dos portugueses Zeca Afonso e de Adriano Correia de Oliveira, é um tesouro vivo do nosso tempo. É um património cristalino e esquivo, que não se deixa domar ou domesticar.
O júri que atribuiu o prémio a Chico Buarque foi presidido por Manuel Frias Martins, professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e também presidente da Associação Portuguesa de Críticos Literários. Os outros membros do júri foram Clara Rowland (Portugal), Antonio Cícero e Antonio Carlos Hohlfeldt (Brasil), Ana Paula Tavares (Angola) e Nataniel Ngomane (Moçambique). Na declaração de atribuição do prémio, Manuel Frias Martins declarou: ”(…) a vasta contribuição da obra de Chico Buarque vai além de seus inegáveis aportes à riqueza literária da língua portuguesa e mostra que arte e cultura estão entrelaçados com a política e com nossos ideais de liberdade e democracia (…)”.

O prémio foi atribuído ao artista em 2019, mas a pandemia e o governo Bolsonaro colocaram-se de permeio. Como consequência, a cerimónia solene de entrega daquela distinção só viria a ocorrer a 24 de Abril de 2023, no Palácio Nacional de Queluz, junto a Lisboa, na presença do presidente de Portugal Marcelo Rebelo de Sousa e do presidente do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva.
Muito emocionado, entre lágrimas e gargalhadas nervosíssimas, Chico Buarque afirmou naquela ocasião: “Lá se vão quatro anos que meu prêmio foi anunciado e eu já me perguntava se me haviam esquecido. Quatro anos, com uma pandemia no meio, davam às vezes a impressão de que um tempo bem mais longo havia transcorrido. No que se refere ao meu país, quatro anos de governo funesto, duraram uma eternidade, porque foi um tempo em que o tempo parecia andar para trás.”
Também eu me emocionei ao ouvir as palavras verticais e límpidas do compositor popular. E logo recordei um outro samba, “Vai passar”, composto em parceria com Francis Hime para o disco Chico Buarque (1984) e que, como bem sabem, se tornou num hino para o movimento pelas Diretas Já: “Vai passar/ Nessa avenida um samba popular”. A denúncia de uma situação intolerável transformada em cântico que desceu às ruas pela voz do povo e que permanece, ainda hoje, como um referencial de lucidez e de resistência. A coragem de um património popular que ilumina e dá sentido à revolta daqueles que não toleram mais as injustiças e que não temem denunciá-las: “Palmas pra ala dos barões famintos/ O bloco dos napoleões retintos/ E os pigmeus do bulevar/ Meu Deus, vem olhar/ Vem ver de perto uma cidade a cantar/ A evolução da liberdade/ Até o dia clarear.”
A Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial da UNESCO (2003) estabelece que o património cultural imaterial compreende “as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas – bem como os instrumentos, objetos, artefactos e espaços culturais que lhes estão associados – que as comunidades, os grupos e, em alguns casos, os indivíduos reconhecem como fazendo parte do seu património cultural”. Este conceito reflete uma visão dinâmica e abrangente da cultura, reconhecendo a importância não apenas dos vestígios físicos do passado, mas também das manifestações vivas que contribuem para a continuidade e para a renovação das culturas humanas.

Num tempo em que o mundo enfrenta ameaças persistentes à liberdade, à justiça social e à dignidade humana, a obra de Francisco Buarque de Hollanda permanece como um farol de esperança e de compromisso ético. “Samba de Orly” e “Vai passar” recordam-nos que a história é feita de ciclos, mas também de rupturas fulgurantes, movidas por uma vontade colectiva de transformação. Ao entrelaçar arte e política, poesia e resistência, Chico Buarque oferece-nos não apenas um espelho crítico da realidade, mas, acima de tudo, um horizonte de possibilidades, um futuro onde a beleza e a liberdade caminham lado a lado. A sua voz ecoa para além das fronteiras geográficas ou ideológicas, alimentando a memória viva de um património que é de todos nós: o património da palavra livre, da música que une, da cultura que liberta: “Canta a Primavera, pá/ Cá, estou carente/ Manda novamente algum cheirinho de alecrim” (“Tanto Mar”, 1975; e no disco Chico Buarque, 1978).
Neste tempo de incertezas, a sua obra convida-nos a acreditar, com lucidez, mas também com uma ternura imensa, que o dia vai mesmo clarear. Enquanto houver quem cante, leia, pense e resista, a avenida continuará a ser percorrida pelo samba popular da esperança, mas também da resistência.
(*) Doutor em Ciência Política
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa





