sábado, 15 agosto 2026
Nublado
Maceió
20°C
Nublado
Nublado
Maceió
20°C
Nublado

Artefato Adolfiano

por | 15 ago, 2026

ESPALHE A NOTÍCIA
Link copiado para o Instagram!

Todas às vezes em que recebo um novo álbum do querido Antonio Adolfo, dentre as inúmeras vantagens auditivas e estéticas fruitivas, chega-me, também, uma peculiaridade nostálgica e paradoxal. Nostálgica, pelo fato de receber o álbum via Correios, como antes me chegavam as cartas aguardadas com ansiedade juvenil. Paradoxal, porque não há nada mais atual e moderno do que a música que o mestre Antonio Adolfo nos oferta a cada novo trabalho lançado por ele.

Feita essa fugaz correlação entre um passado coevo e a modernidade atemporal da música do mestre, no último dia 17 de julho, o incansável e inspirado compositor e pianista carioca, que de há muito transcendeu as fronteiras do Brasil, lançou o seu mais recente álbum intitulado ‘Balaios’. Particularmente, logo após a primeira audição, percebi que o mais conveniente seria recorrer ao release que acompanha o álbum físico, para fazer um recorte do trecho no qual encontrei a definição mais apropriada para este excelente e exclusivo lançamento da música instrumental brasileira: ”As nove composições aqui reunidas foram escritas em diferentes fases da trajetória artística de Antonio Adolfo, criando uma autobiografia musical de ideias, memórias e melodias que continuam a ressoar com vitalidade renovada.” 

Desígnios Apolíneos

Dito isto, não poderia ter título mais apropriado, como significado do que nos propõe Antonio Adolfo neste novo trabalho. Enquanto artefatos, os balaios são utensílios da nossa mais autêntica ancestralidade indígena, a partir do manejo criativo e artesanal de folhas de palmeiras, cipó ou dendezeiro. Bem como da nossa ancestralidade africana que, no candomblé, acomoda oferendas, pedidos e elementos sagrados dedicados aos orixás, como um presente coletivo ou individual para agradecer, pedir proteção ou celebrar divindades específicas. Antonio Adolfo, ao apropriar-se deste substantivo, e com ele titular este álbum, generosamente, como numa oferenda, nos faculta sua trajetória fecunda de compositor e arranjador, que por mais de seis décadas tem criado e reunido pérolas nos balaios de sua existência pelos caminhos e desígnios apolíneos da música brasileira.

Para tecer este belo ‘Balaios’, com a robustez e beleza artesanal necessárias à música do mestre Antonio Adolfo, parceiros e colaboradores de priscas eras foram fundamentais, pois sabem como poucos dar clareza e precisão à música de sua lavra, agregando-lhe imensurável valor, a partir do desempenho individual e coletivo, que possibilitam excelência ao resultado final.  Dessa maneira, ter André Siqueira (percussão), Danilo Sinna (sax alto), Jessé Sadoc (trompete e flugelhorn), Jorge Helder (baixo acústico), Lula Galvão (guitarra e violão), Marcelo Martins (sax tenor e flauta), Rafael Barata (bateria) e Rafael Rocha (trombone), como coartífices desse ‘Balaios’ recheado de temas arrebatadores, certamente, passou pelo privilégio da confluência de propósitos e sintonia musical imprescindíveis às realizações exitosas. O álbum ainda conta com dois convidados especiais: o saxofonista Leo Gandelman, na faixa ‘Meu Canto’, e o guitarrista californiano Thomas Rotella, na bossa ‘Claudia’, gravada originalmente em 2019, no álbum “Vamos Partir Pro Mundo’, com a Leila Pinheiro.

Porvir de Sensações

Ao longo dos últimos anos, a frequência com que Antonio Adolfo tem lançado novos álbuns anda compasso a compasso com a fidelidade inflexível ao apuro técnico e criativo em cada novo registro de sua obra. Portanto, ao analisar este seu mais recente trabalho, resta-me tão somente a abordagem por um viés sensorial, lúdico ou até cognitivo, porém, simplesmente como fruidor atento e livre de amarras técnicas, para não correr o risco de chover no molhado. Assim, ao abrir o ‘Balaios’, teremos o tema ‘3D Blues’, que foi gravado originalmente em 1965, cuja tenção das convenções iniciais, fatalmente, desembocariam num matreiro samba jazz, com pitadas de baião, tipo abre-alas perfeito para o porvir de sensações e emoções fruitivas.

Na sequência, a bossa ‘Claudia’ remete-me ao período em que morei em Copacabana e costumava caminhar na Avenida Atlântica, sobre a criação ondulada do genial Burle Marx, sem tempo de ir nem de voltar. Em seguida, ‘San Expedito’ nos traz de volta aos tempos de agora, pelo tanto de frenesi, sobretudo, em relação ao tema anterior. Tem uma célula, desde a sua introdução, que nos põe em alerta, tipo as vinhetas de telejornais que anunciam notícias inesperadas e urgentes. Composto em 1989, o tema ‘Sambalaio’ já prenunciava o título deste novo álbum. Aliás, como em todo balaio, as coisas se misturam e aqui temos uma deliciosa miscelânea de samba-funk com o samba característico da obra e do mestre Antonio Adolfo.

Possibilidades Lúdicas

Ainda dos anos 1980, vem a galope o galope ‘Até Que Venha o Amor’ que, de acordo com o compositor, trata-se de uma ode à produção independente, posto que, à época, começava a ser reconhecida e teve em Antonio Adolfo o seu precursor. “Meu Canto”, uma belíssima valsa contemporânea, é também a última canção composta por Antonio Adolfo e o seu saudoso parceiro Tibério Gaspar.  Nela, acontece a participação especial do saxofonista Leo Gandelman, em um sensível e delicado solo de sax alto. Continuando o prazer da audição, ‘Visão’ estende as possibilidades lúdicas do tema anterior, numa belíssima balada, também em parceria com Tibério Gaspar que, aliás, já foi gravada pelos saudosos Agostinho dos Santos, Taiguara e o gaitista belga Toots Thielemans.

Prenunciando a despedida, o baião ‘Caminhada’ restitui a luminosidade colorida deste álbum e traz uma harmonia nada tradicional ao gênero. Também é uma parceria com Tibério Gaspar e foi finalista do II Festival Internacional da Canção, de 1967. Fechando a tampa do ‘Balaios’, com a instigação inteirada ao recomeço, a onomatopeica ‘Zah Toom Toom’, nos primeiros compassos da introdução, esclarece o porquê do título, por meio da caixa e do bumbo da bateria de Rafael Barata. Daí por diante, este samba-funk ratifica o que vínhamos ouvindo desde o início: músicos inspirados e coesos, em solos irretocáveis e virtuosos, sob a batuta de um mestre que não para de produzir e nos ofertar tesouros, que nunca deixarão nossos balaios vazios e à míngua.

No +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!!

Pulo do Gato: “Em muitos aspectos, um álbum também é um balaio. Nele, um músico reúne o que cultivou ao longo do tempo.”

Ouça aqui: https://antonioadolfo.hearnow.com/

 

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *