A prisão do argentino Fernando Cerimedo, apontado pelo Ministério Público da Bolívia como suposto autor intelectual de um atentado contra uma advogada em Santa Cruz de la Sierra, voltou a colocar no centro do debate as conexões internacionais da extrema direita e a atuação do consultor eleitoral que ganhou projeção no Brasil ao difundir alegações falsas sobre as urnas eletrônicas.
Cerimedo foi detido no aeroporto de Viru Viru, na Bolívia, quando tentava embarcar para Buenos Aires. A prisão ocorreu após a advogada Nadia Beller ser baleada três vezes na entrada de um hotel. Segundo o relato da vítima, ela sobreviveu ao ataque depois de fingir estar morta.
As acusações contra Cerimedo ainda precisam ser esclarecidas pela Justiça boliviana. A defesa nega envolvimento no atentado e classificou o episódio como uma tentativa de transformar o caso em um instrumento político.
O personagem que ganhou espaço no bolsonarismo
Consultor político e estrategista digital, Cerimedo trabalhou na campanha presidencial de Javier Milei, na Argentina, e mantém o site La Derecha Diario, veículo identificado com a direita radical latino-americana.
No Brasil, ele ficou conhecido principalmente após as eleições presidenciais de 2022. Poucos dias depois do segundo turno, publicou uma transmissão intitulada “Brazil Was Stolen”, na qual apresentou uma suposta análise estatística para sustentar que determinados modelos de urnas eletrônicas teriam favorecido Luiz Inácio Lula da Silva.
A narrativa rapidamente alcançou grande audiência nas redes sociais e passou a integrar o repertório utilizado por apoiadores de Jair Bolsonaro para questionar o resultado eleitoral.
A tese, entretanto, foi rejeitada pela Justiça Eleitoral. Posteriormente, investigações da Polícia Federal identificaram relação entre o material divulgado por Cerimedo e os argumentos utilizados pelo Partido Liberal em uma ação que buscava invalidar votos de urnas eletrônicas utilizadas no segundo turno de 2022.
O PL pediu a anulação de mais da metade dos votos do segundo turno com base em supostas inconsistências relacionadas a modelos antigos de urnas. O Tribunal Superior Eleitoral rejeitou a iniciativa e aplicou ao partido uma multa de R$ 22,9 milhões por litigância de má-fé.
Segundo elementos reunidos pela PF, o conteúdo produzido por Cerimedo serviu de base para a argumentação apresentada posteriormente pelo partido.
Reaproximação em ano eleitoral
Depois de permanecer afastado dos holofotes brasileiros durante alguns anos, Cerimedo voltou a aparecer em articulações ligadas ao bolsonarismo.
Em julho de 2026, participou de uma transmissão ao lado do deputado Eduardo Bolsonaro, na qual voltaram a ser discutidas alegações sobre supostas irregularidades nas urnas. A reaproximação ocorre justamente em um novo ciclo eleitoral e recoloca o consultor no ambiente político brasileiro.
A prisão na Bolívia, portanto, ganha dimensão adicional por ocorrer em um momento em que as estratégias digitais e a circulação internacional de discursos da extrema direita voltam a ocupar espaço no debate político.
Acusações da vítima
Além de apontar Cerimedo como responsável pelo ataque, Nadia Beller fez acusações envolvendo negócios e relações políticas na Bolívia. Ela afirmou ter conhecimento de supostas operações envolvendo combustíveis e ouro e disse possuir informações sobre atividades relacionadas ao narcotráfico.
Beller também afirmou que Cerimedo se apresentava como agente da CIA e citou outros nomes ligados ao ambiente político internacional. Essas declarações, contudo, são acusações feitas pela própria vítima e ainda dependem de investigação e comprovação pelas autoridades bolivianas.
A defesa do argentino rejeita as acusações. Uma de suas advogadas, Margarita Arce, classificou o episódio como um “show político” e levantou a hipótese de que a própria Beller teria provocado o atentado para atingir a imagem do governo boliviano. Cerimedo, segundo o relato apresentado, recusou-se a prestar depoimento.
A conexão com Brad Parscale
Outro personagem mencionado no caso é Brad Parscale, estrategista digital norte-americano que teve papel de destaque nas campanhas de Donald Trump. Ele é apontado como um dos responsáveis pela estratégia digital que ajudou a campanha republicana a utilizar dados e redes sociais para alcançar eleitores.
Parscale também aparece associado a iniciativas políticas voltadas ao público conservador nos Estados Unidos e a operações de comunicação relacionadas à imagem de Israel entre eleitores republicanos.
A acusação de que ele atuaria como agente da CIA na América Latina, porém, permanece sem comprovação pública e integra as declarações feitas pela denunciante no contexto do caso boliviano.
Uma rede política que atravessa fronteiras
O episódio volta a chamar atenção para uma característica cada vez mais presente na atuação da extrema direita: a circulação de estrategistas, métodos de comunicação e campanhas digitais entre diferentes países.
Cerimedo atuou na Argentina e manteve relações políticas na Bolívia, enquanto também estabeleceu conexões com grupos ligados ao bolsonarismo no Brasil. Parscale, por sua vez, construiu sua trajetória nos Estados Unidos e se tornou uma referência internacional em estratégias digitais para a direita.
A presença desses personagens em diferentes campanhas mostra como as disputas políticas passaram a ser influenciadas por redes que ultrapassam as fronteiras nacionais.
No Brasil, a participação de Cerimedo na construção e disseminação de narrativas que questionaram as eleições de 2022 tornou sua prisão na Bolívia especialmente relevante. O caso agora dependerá das investigações locais para determinar se as graves acusações apresentadas contra ele têm sustentação.
Até que isso seja esclarecido, as denúncias sobre atentado, tráfico, negócios e supostas conexões com serviços de inteligência devem ser tratadas como acusações ainda sob investigação — e não como fatos comprovados.






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