O sertão nordestino passou a ser campo de pesquisa e experimentação para culturas que durante décadas foram associadas a regiões de clima frio. Estudos desenvolvidos pela Embrapa Semiárido em parceria com a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) indicam que pera, maçã e caqui apresentam potencial de adaptação ao Vale do São Francisco, graças ao uso da irrigação e de técnicas específicas de manejo agrícola.
A pesquisa representa uma nova possibilidade de diversificação para uma região que se consolidou como grande produtora de frutas tropicais, especialmente manga e uva de mesa. O objetivo é ampliar as alternativas de cultivo nos perímetros irrigados e avaliar novas oportunidades econômicas para os produtores.
Pera apresenta maior potencial entre as culturas avaliadas
Entre as frutas estudadas, a pera aparece como uma das culturas de maior potencial. Experimentos realizados no Vale do São Francisco indicam que algumas variedades adaptadas ao semiárido podem alcançar produtividade de até 60 toneladas por hectare no quarto ano de cultivo.
As variedades Triunfo e Princesinha estão entre as que apresentaram melhores resultados, além de cultivares como Housui, Packham’s e Schmidt.
O desempenho chama atenção porque a produção brasileira de peras ainda é insuficiente para atender ao consumo interno, tornando o país dependente de importações. A adaptação da cultura ao semiárido pode abrir uma nova alternativa para a produção nacional.
Para alcançar esses resultados, os pesquisadores utilizaram técnicas de manejo capazes de ajustar o ciclo da planta às condições locais, com controle do desenvolvimento vegetativo e práticas agrícolas específicas para a região.
Maçã produzida no semiárido
A maçã, outra fruta tradicionalmente associada às áreas de clima frio, também apresentou resultados promissores no Vale do São Francisco. Pesquisas registraram produtividade de até 42 toneladas por hectare, com frutos de qualidade comercial.
Variedades como Princesa e Julieta foram avaliadas nos experimentos conduzidos pela Embrapa e pela Codevasf.
A cultura da maçã depende, em condições tradicionais, de períodos de baixas temperaturas para completar seu ciclo produtivo. No semiárido, os pesquisadores estudam formas de manejo que permitam adaptar o comportamento da planta ao ambiente quente e seco.
Os resultados das pesquisas levaram produtores de áreas irrigadas de Petrolina (PE) a realizar experiências de cultivo comercial, ainda em fase de avaliação e desenvolvimento.
Caqui amplia possibilidades de diversificação
O caqui também passou a ser avaliado como alternativa para o semiárido irrigado. Tradicionalmente cultivado em estados como São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, o fruto demonstrou capacidade de adaptação às condições do Vale do São Francisco.
Pesquisas da Embrapa Semiárido e da Codevasf indicam potencial de produção de até 8 toneladas por hectare a partir do quarto ano de cultivo, com possibilidade de duas safras em determinadas condições de manejo.
O resultado ainda está abaixo dos principais polos produtores do país. Em São Paulo, maior produtor nacional, a produtividade média gira em torno de 25 toneladas por hectare, enquanto áreas tecnificadas podem superar 35 toneladas por hectare. Em Minas Gerais, a média fica próxima de 20 toneladas por hectare.
A importância da pesquisa está na adaptação de uma fruta tradicionalmente associada ao clima frio a uma região de clima quente e seco, ampliando as alternativas da agricultura irrigada. A produção no semiárido também pode ocupar períodos estratégicos de mercado, especialmente entre agosto e janeiro, quando a oferta nacional é menor.
Uma nova etapa para a agricultura irrigada
A experiência do Vale do São Francisco mostra como a pesquisa agropecuária e a tecnologia de irrigação vêm ampliando as possibilidades da produção agrícola no semiárido brasileiro.
Pera, maçã e caqui ainda não possuem a mesma escala comercial de culturas consolidadas como manga e uva, mas representam uma nova etapa de diversificação da fruticultura irrigada.
O desafio agora é transformar os resultados obtidos nos campos experimentais em cadeias produtivas mais amplas, com domínio das técnicas de cultivo, organização dos produtores e acesso aos mercados.
O que antes parecia restrito às regiões frias do país passou a ser uma possibilidade estudada no sertão: produzir frutas de clima temperado em uma das regiões irrigadas mais importantes da agricultura brasileira.










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