Por Bruno Lima
Leopoldo Heckel Tavares da Costa nasceu em 16 de setembro de 1896, em Satuba, Alagoas, e viveu em um período de profundas mudanças políticas, sociais e culturais no Brasil. Sua trajetória atravessou a Primeira República, a Revolução de 1930 e a Era Vargas, chegando às décadas de modernização e transformação cultural que marcaram o país ao longo do século XX.
Filho do comerciante João Tavares da Costa e da baiana Elisa Cardoso da Costa, Hekel passou sua infância e adolescência em Maceió, especialmente no bairro de Bebedouro. A família Tavares da Costa vivia em um casarão situado na atual Avenida Major Cícero de Góes Monteiro, nº 3.621, que posteriormente abrigaria a Casa de Saúde Miguel Couto. Hoje, porém, o local está inserido na área afetada pelo processo de afundamento do solo de Maceió, associado à exploração de sal-gema, que alterou profundamente a paisagem urbana de Bebedouro e de bairros vizinhos.

1° audição do concerto para Piano ocorrido no auditório da Radio Nacional em 1941, com a solista Antonieta Rudge (1885-1974)
Naquele ambiente, Hekel esteve em contato com uma diversidade de manifestações musicais populares, entre elas os cocos, reisados, congadas, desafios e cantorias nordestinas. Esse contato inicial com a cultura popular não foi apenas uma experiência de infância: tornou-se uma das bases fundamentais de sua concepção artística e permaneceria como elemento recorrente em sua produção musical.
Em 1921, Hekel mudou-se para o Rio de Janeiro, então capital federal e principal centro cultural do país, onde passou a conviver com um ambiente intelectual marcado pelo nacionalismo e pelas novas ideias que ganhariam força com o Modernismo brasileiro, especialmente após a Semana de Arte Moderna de 1922.
Foi nesse contexto que amadureceu sua concepção de uma música genuinamente brasileira, construída a partir das tradições populares e dos diferentes elementos culturais presentes no país. Foi sobretudo como compositor de canções que Hekel Tavares conquistou grande reconhecimento junto ao público brasileiro.
A partir daí, suas obras passaram a ser gravadas e divulgadas por importantes intérpretes de seu tempo como Sylvio Vieira, Sérgio da Rocha Miranda, Moacir Bueno da Rocha, Jayme Redondo, Januário de Oliveira, Roberto Vilmar, Raul Roulien, Francisco Alves, Gastão Formenti, Elsie Houston, Stefana de Macedo, Ruth Caldeira, Elisa Coelho, Vera Janacopulos, Silvinha Mello, Patrício Teixeira, Alma Cunha de Miranda, Jorge Fernandes e Paraguassu, alcançando grande êxito no rádio e nos discos.
Canções como Suçuarana, Azulão, Casa de Caboclo, Guacira, Favela, Leilão, Banzo e O Carreiro revelam sua capacidade de transformar ritmos, melodias e temas da cultura popular brasileira em uma linguagem musical elaborada e de forte caráter lírico.
Ao mesmo tempo, Hekel Tavares não estabelecia uma separação rígida entre a música popular e a música de concerto. Para ele, a criação musical deveria partir das manifestações culturais do próprio país e transpor para a linguagem de concerto o espírito da música popular brasileira.

Hekel Tavares com a pianista Guiomar Novaes (1895-1979), intérprete que executou o Concerto para Piano em turnê pelos EUA
Essa concepção orientou sua produção sinfônica, especialmente a partir da década de 1930, e encontrou uma de suas expressões máximas em seu magnum opus, o Concerto para Piano e Orquestra – Em Formas Brasileiras, composto em 1938, sendo executado por grandes intérpretes como Antonieta Rudge, Guiomar Novaes, Souza Lima, Felicja Blumental, pelo alagoano Joel Bello Soares (recentemente falecido), Pietro Maranca, Arnaldo Cohen e outros.
Em 1937, Hekel compôs sua primeira grande peça para orquestra sinfônica: André de Leão e o Demônio de Cabelo Encarnado Op. 104, nº 1 (1937), inspirada em poema de Cassiano Ricardo e baseada em elementos lendários do imaginário brasileiro. A obra marcou o início de uma nova fase em sua carreira, caracterizada pela tentativa de construir uma linguagem sinfônica autenticamente nacional.
Nos anos seguintes, além do Concerto para piano, escreveu a Sinfonia em Mi Menor para Coro e Orquestra (1940), que se encontra perdida; Alma Brasileira – Suite de Canções para Orquestra e Coro Misto (1940); as Variações Sinfônicas (1941); e a Tocatina para Orquestra Op. 103 (1941).
Durante as décadas seguintes, Hekel continuou ampliando sua produção sinfônica e vocal. Compôs as 3 Canções de Natal Op. 106 (1948), a suíte infantil Aconteceu no Natal (1952), o monumental poema sinfônico Anhanguera Op. 111, nº 7 (1954), a inacabada ópera Palmares – Folkdrama (1954), o Concerto para Violino e Orquestra – Em Formas Brasileiras Op. 107, nº 4 (1956), executado pela primeira vez pelo brilhante Oscar Borgeth; o Adagio para Violino e Piano (1958), o Capricho Brasiliense para Orquestra de Cordas (1959), a suíte Brasília para Coro Misto e Orquestra (1960), Novos Caminhos – Fantasia para Coro e Orquestra (1960), além da fantasia infantil O Sapo Dourado, originalmente composta em 1934 e revisada em 1962. Em seus últimos anos, dedicou-se ainda à composição da Rapsódia Nordestina (1967), uma síntese de toda sua pesquisa estética sobre o Nordeste brasileiro.
Em 1965, Hekel Tavares assumiu, por um breve período, a presidência da Ordem dos Músicos do Brasil. Nos anos seguintes, continuou trabalhando em relançamentos de suas gravações, ainda sobrevivendo aos custos de música. Entretanto, a partir da segunda metade da década de 1960, observa-se um notável declínio no ritmo de sua produção musical, em um período marcado pelas profundas transformações políticas e culturais provocadas pelo regime militar instaurado no Brasil em 1964.
Hekel Tavares faleceu em 8 de agosto de 1969, no Rio de Janeiro, vítima de um câncer no fígado. Mesmo após sua morte, sua obra continua viva através de novas gravações, pesquisas e interpretações. Pesquisadores como Claudevan Melo (b. 1951) e Instituto Moreira Salles (IMS) contribuem ativamente para preservar e divulgar a vasta obra de Hekel Tavares atualmente. Hoje,
Hekel Tavares é reconhecido como um dos maiores representantes do nacionalismo musical brasileiro e como uma figura singular da cultura brasileira do século XX. Sua música construiu uma rara ponte entre o popular e o erudito, entre o sertão e a sala de concertos, entre a tradição regional e a sofisticação sinfônica.
*Graduando em História








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