O ex-ministro José Dirceu defendeu uma reconstrução do Partido dos Trabalhadores (PT), com maior participação da militância, renovação dos quadros dirigentes e ampliação do diálogo com outras forças políticas de esquerda.
Em entrevista ao jornalista Sérgio Roxo, publicada nesta terça-feira (3) pelo jornal O Globo, Dirceu afirmou que a vitória eleitoral de Lula não foi uma vitória do PT e cobrou que o partido tire consequências desse resultado.
“A vitória na eleição não foi do PT. Temos que tirar consequências disso, não pode só falar”, declarou.
Na avaliação do ex-ministro, a reeleição de Lula foi resultado de uma mobilização democrática que reuniu diferentes setores políticos e sociais. Ele classificou o processo eleitoral como uma “revolução pacífica e democrática pelo voto no Brasil”.
“Temos que fazer quase uma reconstrução do PT”, afirmou Dirceu, ao defender mudanças na organização interna da legenda e maior participação da militância nas decisões partidárias.
Unidade das forças progressistas
Dirceu defendeu a construção de uma articulação política mais ampla, envolvendo partidos de esquerda e outras forças democráticas.
“Nosso futuro é o da esquerda. Não é o de uma liderança, um substituto do Lula. Precisamos unir forças progressistas e democráticas”, afirmou.
Na sequência, defendeu o diálogo com PSOL, Rede, PDT e PSB para constituir “uma força mais orgânica”.
O ex-ministro também considera que o governo Lula precisa refletir a diversidade das forças políticas e sociais que participaram da vitória eleitoral. Segundo ele, o Executivo deve representar não apenas os partidos que integram a base parlamentar, mas também setores da sociedade que apoiaram Lula por compromisso com a democracia.
“O presidente tem uma oportunidade histórica de chamar o país a um pacto político”, declarou.
Dirceu citou quatro reformas que, em sua avaliação, precisam ser pactuadas: tributária, financeira, política e do Judiciário.
Renovação do PT e diálogo com a sociedade
A renovação partidária é outra preocupação destacada na entrevista. Dirceu considera urgente ampliar a democracia interna, melhorar a formação política e fortalecer a atuação nas redes sociais.
“Temos de democratizar mais o PT, melhorar a formação política e a atuação nas redes. A renovação no PT é urgente”, afirmou.
Ele também defendeu maior participação de mulheres e jovens na estrutura partidária e reconheceu o fortalecimento do PT no Nordeste, região que, segundo ele, terá representação maior na direção nacional.
Sobre a aproximação com segmentos sociais que demonstram insatisfação com a esquerda, Dirceu chamou a atenção para a juventude e os evangélicos.
“Temos de compreender melhor os setores da sociedade, sobretudo a juventude, insatisfeitos com a esquerda. Precisamos superar essa questão que o PT é antievangélico. Não podemos ter preconceito de que os evangélicos são bolsonaristas”, declarou.
O ex-ministro também defendeu o diálogo com os jovens que votaram em Flávio Bolsonaro.
“Nós não devemos estigmatizar, atacá-la como se fosse um pecado votar na direita. Temos que dialogar”, afirmou.
Sucessão de Lula
Ao abordar o futuro da liderança política da esquerda, Dirceu afirmou que novas lideranças terão de conquistar espaço por sua atuação política e administrativa.
“Terão de provar isso governando ou liderando”, declarou.
Ele citou Fernando Haddad como exemplo de liderança que ganhou espaço a partir de sua atuação nos ministérios da Educação e da Fazenda.
“A direita já tem nomes enfileirados”, observou.
Dirceu também afirmou que o PT só terá renovação formal de sua direção em 2029, mas que o próximo congresso partidário deverá discutir mudanças no estatuto para abrir espaço às novas realidades políticas e sociais.
Economia e direitos sociais
Na avaliação de Dirceu, a dívida pública e os juros são questões importantes no debate econômico nacional.
“Existe um problema real no Brasil, que é a dívida pública. Mas tem que baixar o juro”, afirmou.
Ele defendeu que a discussão sobre reformas fiscais também considere a renúncia fiscal e envolva forças políticas, empresariais e o movimento sindical.
Ao tratar das reivindicações dos setores que apoiaram Lula, Dirceu chamou a atenção para a preservação de direitos sociais.
“Não nos peçam para fazer aquilo que o eleitorado não aprovou”, declarou, mencionando a vinculação do salário mínimo, as aposentadorias, a saúde e a educação.
Derrota eleitoral
Dirceu também comentou sua derrota na disputa por uma vaga na Câmara dos Deputados por São Paulo. Segundo ele, a ausência de campanha durante parte do período eleitoral prejudicou seu desempenho.
“Eu não fui eleito porque não fiz campanha”, afirmou.
O ex-ministro explicou que permaneceu em casa de 10 de maio a 22 de setembro, durante tratamento contra um linfoma.
“Já virei essa página. Não serei mais candidato”, concluiu.







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