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MALHAR EM FERRO FRIO

por | 1 jul, 2021

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A frase “a felicidade mora ao lado” cai como uma luva, quando se trata do reconhecimento do público aos artistas locais e suas produções culturais. Aqui ao lado, a capital do frevo fervilha ao som do baque do maracatu. É a força da cultura pernambucana oxigenada pela juventude, que descobre suas raízes e canta, conectando-se com o mundo através de sua arte popular. É tamanha essa força, que já cai por terra a barreira burra e preconceituosa de que santo de casa não faz milagre.

Grupos como o Maracatudo, Cabra Alada, Mestre Ambrosio, Cordel Do Fogo Encantado ou Dona Selma do Coco e Silvério Pessoa, não precisaram sair de Pernambuco para serem reconhecidos e conquistarem o respeito e a admiração de sua gente. Nesse cenário, novos personagens não param de aparecer. Emergem do caldeirão borbulhante que Chico Science deixou fervendo, a partir do Movimento Mangue. São inúmeras vertentes, que vêm das comunidades, onde os índices de criminalidade caíram na proporção exata em que cresceu o interesse dos jovens pelos tambores de alfaia. Canais são abertos, por meio da música, dando-lhes o direito de expressão e a possibilidade de serem reconhecidos e, mais do que isso, compreendidos.

Foco Principal

Algumas figuras são importantes neste contexto e sabem que Mário de Andrade tinha razão: para uma expressão cultural se tornar universal é preciso ser autêntica e falar a linguagem de sua aldeia. Essas pessoas têm um compromisso sério com a cultura a qual pertencem. Participam de maneira especial desse universo, incentivam, valorizam e, acima de tudo, abrem as portas para o novo. Mas o que dizer de nós, aqui do aquário, que estamos tão perto e não conseguimos sair da condição de espectadores das realizações alheias?

Aos artistas alagoanos, cabe criar, propor, conhecer nossa cultura e fortalecê-la. Não basta alardear sua riqueza e ao mesmo tempo fechar os olhos para suas fraquezas e deixá-la debilitada, sempre dependente das pessoas que assumem cargos, mordomias e esquecem o dever. Certamente, não é da China que vem essa pandemia, que atinge os verdadeiros defensores da nossa cultura, deixando-os sempre de recaída, debilitados, pedindo socorro permanentemente. De alguma forma, ainda existe aquela luz no fim do túnel. Tudo bem, está apagadinha, mas acho que podemos e devemos acendê-la. Este é um dos pontos. Entretanto, o foco principal está na própria sociedade alagoana, que é preconceituosa e confunde qualidade cultural com os padrões duvidosos da mídia comercial e depois, felizes e mais ignorantes ainda, arrotam o lixo que lhes é enfiado goela abaixo.

Olhar atento

Malhar em ferro frio é o que os artistas alagoanos, de quase todas as áreas, vêm fazendo ao longo dos anos. E como é triste chegar a essa conclusão. Mas o que pensar, quando artistas comprometidos com a qualidade cultural de sua arte, depois de esforços gigantescos, para produzirem espetáculos dignos de qualquer palco do mundo, são preteridos pelo público que, antes da pandemia, preferia lotar espaços que mais parecem currais e assistir a grupos que moram dentro dos programas de televisão e acham que os nossos ouvidos são pinicos? E o que dizer do pensamento equivocado, no qual é preciso primeiro fazer sucesso fora, para só depois ser reconhecido com o devido valor por sua gente? Chega dessa história do não vi e não gostei! E isso não se aplica apenas ao grande público.

Pernambuco tem conseguido dar a infraestrutura básica para alavancar setores da cultura popular que, a partir de um certo momento, tomam fôlego e vão em frente. Isso tem que ser cobrado aqui! É obrigação dos que estão à frente dos órgãos responsáveis pelo fomento à cultura alagoana. Não podemos ter medo de aprender o que está dando certo além fronteiras, principalmente, se for por questões provincianas ou por achar erroneamente que se trata de outra realidade ou coisas do gênero. É preciso um olhar mais atento e cuidadoso às nossas raízes. Só assim, poderemos construir nossa caixa de ressonância para o mundo. Aos artistas, por enquanto, resta o ferro frio para malhar e jamais se deixar abater. Quanto ao público, este fica com a melhor parte: basta abrir os olhos e o coração para a nossa singular, autêntica e excelente produção cultural.

Mácleim Carneiro é jornalista, músico e compositor

 

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