
O texto da lei quer impedir que a Prefeitura contrate artistas que, segundo a vereadora, promovem apologia ao crime – Foto: Arquivo Pessoal/Câmara dos Vereadores
Via Lei de Acesso à Informação (LAI), a Prefeitura de São Paulo informou ao Brasil de Fato que o artista Oruam, um dos principais nomes do trap nacional, realizou apenas um show na capital paulista, financiado por dinheiro público, nos últimos dez anos. Foi na Virada Cultural de 2023 e o músico recebeu um cachê de R$ 47 mil.
O trapper é o principal rosto da Lei anti-Oruam, protocolada na Câmara dos Vereadores de São Paulo pela vereadora Amanda Vetorazzo (UB), ligada ao Movimento Brasil Livre (MBL), grupo de extrema direita de São Paulo. O texto da lei quer impedir que a Prefeitura contrate artistas que, segundo a vereadora, promovem apologia ao crime.
A vereadora Luana Alves (Psol) contestou, mais uma vez, o projeto de Vetorazzo. “Mostra o quanto essa política anti-Oruam não tem nada a ver com a cidade de São Paulo. O valor pago mostra como é um falso problema, um fantasma para esconder os reais problemas da cidade, como a questão da segurança pública, que é um problema sério, a falta de espaço para fazer apresentações, que leva a incômodos como os pancadões e fluxos. Então essa lei é para esconder os reais problemas da cidade”.
Para Joselicio Júnior, Cientista Político e Doutorando em Mudanças Sociais pela Universidade de São Paulo, a escolha do MBL de colocar Oruam como alvo principal é “simbólica e ideológica” para “gerar polêmica”.
Ainda de acordo com Júnior, “a estratégia desse setor da extrema direita está muito nítida, utilizar da criminalização do funk, pautada na cultura do medo, do combate a violência, para organizar e ampliar o seu campo de influência na sociedade e ampliando a sua base social”.
Os dados
O Brasil de Fato perguntou à Prefeitura de São Paulo quantos shows dos artistas mais escutados do trap e funk brasileiro foram contratados pelo poder público, entre os anos de 2014 e 2025.
Na resposta, via LAI, a Prefeitura informou que em dez anos contratou apenas 45 shows. MC Hariel e MC Davi puxam a fila, com seis shows cada, que lhes renderam R$ 760 mil e R$ 228 mil, respectivamente, entre 2016 e 2024.
Em seguida, aparece MC Dom Juan, que fez cinco shows pagos pela Prefeitura, que custaram R$ 360 mil. MC IG foi contratado em quatro oportunidades, que lhe renderam R$ 260 mil, sendo três delas apenas em 2023, na Virada Cultural, no Mês do Hip Hop (março) e no aniversário de São Paulo.
Veigh, MC Daniel e Kevin O Chris foram contratados em três oportunidades cada um. Os shows custaram, ao todo, R$ 526 mil, R$ 570 mil e R$ 543 mil, respectivamente. MC Ryan, KayBlack, L7ennon e Sidoka fizeram dois shows, cada, pagos pelo poder público.
Por fim, Matuê, MC Cabelinho e Oruam tiveram apenas um show pago pela Prefeitura de São Paulo desde 2015. Ao todo, os espetáculos custaram R$ 4,8 milhões aos cofres públicos, uma média de R$ 480 mil por ano.
Dos 45 shows contratados pela Prefeitura de São Paulo, 18 foram realizados nas Viradas Culturais de 2022, 2023 e 2024. Quatorze aconteceram em festivais ligados à cultura Hip Hop ou pelo mês da Consciência Negra.
Quem é Oruam
Mauro Davi dos Santos Nepomuceno, mais conhecido como Oruam, tem 23 anos e se tornou o principal nome do trap, estilo musical que é um apêndice da cultura Hip Hop. Ele nasceu na Cidade de Deus, Zona Oeste do Rio de Janeiro, e fez fama e fortuna com sua carreira musical.
Oruam é contratado da produtora Mainstreet, do rapper Orochi, e já tocou em alguns dos principais festivais de música do país, como Rock In Rio e Lollapaloza. O artista é filho de Marcinho VP, preso desde 1986 e uma das lideranças do Comando Vermelho, facção criminosa que nasce no Rio de Janeiro, mas que tem lastro em alguns outros estados do país.





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