
Glauber disse, em sessões do Conselho de Ética, que o relatório foi “comprado” pelo ex-presidente da Câmara – (crédito: Kayo Magalhães/Câmara)
Por Geraldo de Majella*
Em uma sessão marcada por tumulto, protestos e acusações graves de perseguição política, a Comissão de Ética da Câmara dos Deputados aprovou, nessa quarta-feira (10), o parecer que recomenda a cassação do mandato do deputado Glauber Braga (PSOL-RJ). O relatório, de autoria do deputado Paulo Magalhães (PSD-BA), foi aprovado por 13 votos a favor e cinco contrários, após seis horas e meia de debates intensos e manifestações de apoio ao parlamentar por parte de colegas de partido e militantes que lotaram as dependências da Casa.
Glauber Braga, um dos mais combativos críticos do chamado orçamento secreto, denunciou abertamente que sua cassação foi articulada pelo ex-presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL). “Estou o dia inteiro em jejum. E não vou, a partir de agora, até o fechamento desse processo, me alimentar. Vou permanecer aqui, aguardando com uma decisão irrevogável de que não serei derrotado pelo orçamento secreto”, declarou Glauber, dando início a uma greve de fome como forma de resistência política.
O gesto corajoso teve um desdobramento histórico: a deputada Luiza Erundina (PSOL-SP), aos 90 anos e em seu sétimo mandato, também aderiu à greve de fome em solidariedade ao colega. Nunca antes na história republicana do Brasil parlamentares haviam recorrido a esse tipo de protesto extremo dentro do Congresso Nacional. A decisão da veterana deputada não apenas ampliou o alcance simbólico da mobilização, como também impôs à presidência da Casa — e especialmente a Arthur Lira — uma enorme responsabilidade política e moral, caso ocorra qualquer intercorrência com sua saúde.
Em nota, Lira negou ter articulado a cassação e disse que Glauber responde a uma “gravíssima acusação”. No entanto, para os aliados do PSOL e setores democráticos do país, trata-se de uma retaliação política exemplar, voltada a silenciar quem ousa confrontar os esquemas de poder do Centrão. A cassação de Glauber não apenas agride o mandato de um parlamentar eleito, mas representa um alerta sobre os limites éticos da própria Comissão de Ética.
A greve de fome, ato político extremo e inédito no parlamento brasileiro, ressurge como uma ferramenta legítima diante da escalada autoritária em curso. Mais do que um protesto, é um chamado à sociedade e às instituições democráticas para que não se calem diante da perseguição e do abuso de poder. Glauber Braga e Luiza Erundina colocaram seus próprios corpos na linha de frente contra o rolo compressor — e agora a crise não é mais apenas de um partido, mas da República.
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*Historiador e jornalista.





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