Fernando Collor, herdeiro do espólio político de Arnon de Mello, foi moldado desde cedo para o papel de “príncipe” da política alagoana. Amparado por redes oligárquicas e pela força do sobrenome, percorreu todas as instâncias do poder — prefeito de Maceió, deputado federal, governador de Alagoas, presidente da República (primeiro a sofrer impeachment) e senador. Foi também o primeiro ex-presidente condenado definitivamente por corrupção.
Sua trajetória é exemplar do patrimonialismo brasileiro, onde o Estado é apropriado para fins privados. Na Prefeitura de Maceió, nos últimos meses de gestão, empregou milhares de cabos eleitorais sem concurso, destruindo as finanças municipais e inaugurando o padrão de devastação administrativa que seguiria em sua carreira.
No Governo de Alagoas, sob a fachada de combate ao clientelismo — prática que ele mesmo utilizara —, promoveu uma campanha midiática de falsa moralização. Fechou órgãos públicos, demitiu servidores e substituiu-os por aliados políticos, desmantelando a estrutura estatal e aprofundando a subordinação das instituições a interesses privados.
Essa encenação demagógica lhe rendeu projeção nacional, vendendo sua imagem como um suposto “outsider”, quando, na verdade, encarnava a velha política e seus vícios patrimonialistas.
No plano federal, com o apoio decisivo de Roberto Marinho e das Organizações Globo, Collor implementou uma gestão marcada pela combinação de retórica neoliberal e práticas de desmonte institucional, privatizações e corrupção sistêmica como método de governabilidade. O Estado foi capturado como instrumento de saque privado.
Seu impeachment não foi acidente, mas resultado da crise de legitimidade provocada pela degradação institucional e pela corrupção endêmica. Sua queda, contudo, não erradicou o modelo que representava.
O retorno ao Senado confirmou a resiliência das práticas oligárquicas, em que mandatos servem como proteção contra a responsabilização judicial. A posterior condenação e prisão — determinada pelo ministro Alexandre de Moraes — representou um marco simbólico da lenta evolução dos mecanismos de controle republicano no Brasil.
Preso no Presídio Baldomero Cavalcante, Collor simboliza a falência de uma elite política que tratou o Estado como feudo e os interesses públicos e direitos sociais como obstáculos. Sua biografia não é apenas a de um indivíduo: é a de um modelo histórico de poder, cuja superação exige vigilância democrática permanente e fortalecimento institucional. Sem isso, ciclos de corrupção e retrocesso continuarão a assombrar o Brasil.








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