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Reportagem aponta influência de Flávio Bolsonaro sobre hospitais federais durante governo do pai

por | 2 out, 2026

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Uma investigação publicada pela Agência Pública nessa quinta-feira (1º) aponta que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República, teria exercido influência sobre a gestão dos hospitais federais do Rio de Janeiro durante o governo de Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022.

Segundo a reportagem, gestores e ex-gestores hospitalares, servidores públicos, funcionários de órgãos de controle e parlamentares relataram à publicação que indicações para cargos e decisões administrativas na rede federal de saúde passavam pelo grupo político ligado ao senador.

Flávio não ocupava cargo no Ministério da Saúde durante o período. Procurado pela Agência Pública, porém, não respondeu aos pedidos de entrevista.

A apuração reúne documentos do Ministério da Saúde, relatórios do Tribunal de Contas da União (TCU) e da Controladoria-Geral da União (CGU), além de depoimentos de pessoas que acompanharam a administração das unidades.

Entre os problemas identificados estão contratos com indícios de sobrepreço, dificuldades de funcionamento e falta de profissionais. Um diagnóstico produzido pelo Ministério da Saúde em 2023 apontou que 72% dos recursos dos seis hospitais eram destinados a despesas de custeio, como limpeza, vigilância e rouparia.

No Hospital Federal de Bonsucesso, a reportagem cita contratos de apoio administrativo nos quais auditorias identificaram valores considerados elevados em comparação com referências utilizadas pelo governo.

O TCU também possui processos relacionados a contratações realizadas no Hospital de Bonsucesso. Em uma tomada de contas especial julgada em 2026, o tribunal analisou indícios de sobrepreço em contratos emergenciais para equipamentos e insumos de hemodiálise. O acórdão registrou fragilidades na pesquisa de preços e na metodologia utilizada para comparação dos valores.

Outro caso citado pela Pública envolve uma licitação do Hospital dos Servidores para aquisição de insumos de cirurgia vascular. Segundo a reportagem, auditoria preventiva apontou uma estimativa de preços aproximadamente R$ 69 milhões acima dos valores considerados adequados, em uma contratação estimada em R$ 120,9 milhões.

A investigação também menciona problemas estruturais encontrados posteriormente nos hospitais. Em 2023, uma comissão da Câmara dos Deputados identificou centenas de leitos bloqueados ou sem funcionamento, além de áreas vazias, obras paralisadas e equipamentos sem utilização.

Influência política

Um dos episódios destacados pela reportagem ocorreu em 2019, quando Flávio Bolsonaro criticou publicamente a escolha de Paulo Cotrim para dirigir o Hospital Federal de Bonsucesso. Cotrim havia sido indicado pelo então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e acabou exonerado menos de um mês depois.

A Pública afirma ainda que Marcelo Lamberti, posteriormente responsável pelo Departamento de Gestão Hospitalar do Ministério da Saúde no Rio, participou de uma reunião com Flávio Bolsonaro e Mandetta em maio daquele ano. Lamberti assumiu posições de destaque na estrutura responsável pelos hospitais federais.

Em depoimento à reportagem, Lamberti negou que exercesse funções políticas e afirmou ser um servidor técnico. Segundo ele, nomeações e exonerações eram atribuição da cúpula do Ministério da Saúde.

A investigação também recupera declarações feitas pelo ex-governador do Rio Wilson Witzel durante a CPI da Covid, em 2021. Na ocasião, Witzel afirmou que os hospitais federais tinham um “dono” e, posteriormente, disse que se referia a Flávio Bolsonaro. A declaração foi negada pelo senador.

Pandemia

Os problemas de gestão ganharam maior dimensão durante a pandemia de Covid-19. Segundo o relatório final da CPI da Pandemia citado pela Agência Pública, cerca de 30% dos leitos clínicos e de terapia intensiva dos hospitais e institutos federais do Rio permaneceram fechados durante a crise sanitária.

O documento atribuiu parte do problema à falta de profissionais. No fim de dezembro de 2020, cerca de 3,5 mil contratos foram encerrados, enquanto uma medida provisória prorrogou apenas 1,4 mil deles por 60 dias.

A reportagem também descreve situações encontradas posteriormente em unidades como Bonsucesso, Andaraí e Cardoso Fontes, incluindo falta de pessoal, setores fechados e dificuldades para utilização de leitos e equipamentos.

Reestruturação

A partir de 2023, o governo Luiz Inácio Lula da Silva iniciou uma mudança no modelo de administração dos hospitais federais do Rio. A gestão passou a ser descentralizada em diferentes formatos.

O Hospital Federal de Bonsucesso foi transferido para o Grupo Hospitalar Conceição. Andaraí e Cardoso Fontes passaram para a gestão municipal. O Hospital dos Servidores foi incorporado à Universidade Federal Fluminense, enquanto o Hospital da Lagoa passou à Fundação Oswaldo Cruz. O Hospital de Ipanema permanece sob administração direta do Ministério da Saúde.

O próprio TCU acompanha o processo de descentralização. Em relatório divulgado em setembro de 2026, o tribunal apontou fragilidades no planejamento e na execução de recursos e destacou que as seis unidades representam cerca de 10% dos leitos hospitalares do município do Rio, com gastos anuais de aproximadamente R$ 2 bilhões.

O Ministério da Saúde afirma que a reestruturação ampliou a capacidade de atendimento. Dados divulgados pela pasta em agosto apontam investimentos em infraestrutura, equipamentos e contratação de profissionais nos hospitais de Andaraí e Bonsucesso.

Mesmo com mudanças na gestão, a reportagem aponta que permanecem desafios na rede federal. Entre eles estão déficit de médicos, filas para procedimentos e problemas na assistência.

Em agosto deste ano, o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) encaminhou ao Supremo Tribunal Federal um pedido para que fossem investigadas suspeitas relacionadas à atuação de Flávio Bolsonaro na gestão dos hospitais. O pedido cita auditorias do TCU e da CGU e solicita que a apuração alcance eventual participação do senador nas irregularidades apontadas.

O senador não respondeu aos pedidos de entrevista feitos pela reportagem.

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