Da ditadura militar aos escândalos internacionais, a entidade que comanda o futebol brasileiro segue mergulhada em práticas corruptas, blindada por uma rede de poder que inclui empresários, federações e a imprensa tradicional.
A Confederação Brasileira de Futebol (CBF), herdeira direta da Confederação Brasileira de Desportos (CBD), nunca deixou de ser um dos polos mais simbólicos da corrupção estrutural no país. A entidade máxima do futebol nacional acumula décadas de denúncias que vão de contratos fraudulentos e tráfico de influência a assédio moral e sexual. Nada disso é novo. A diferença é que, em tempos de redes sociais e investigações internacionais, ficou mais difícil esconder o que antes era abafado com um gol no domingo à tarde.
Durante a ditadura militar (1964–1985), a CBD foi ocupada por dirigentes alinhados ao regime. Os militares compreenderam o potencial do futebol como ferramenta de propaganda política. Criaram, em 1971, o Campeonato Nacional de Clubes — que viria a se tornar o Campeonato Brasileiro — como forma de ampliar sua popularidade em todos os estados, instrumentalizando o futebol para fins políticos. A manipulação de calendários, convocações e transmissões fazia parte da engrenagem autoritária.
Um dos emblemas dessa simbiose foi o general Heleno Nunes, presidente da CBD entre 1975 e 1979, que tratava o futebol como uma extensão do Estado. A “política dos estádios” levou à construção de arenas gigantescas — muitas hoje sucateadas — para alimentar o culto à imagem dos governadores biônicos e generais de plantão.
Mas a promiscuidade entre futebol, política e negócios não terminou com o regime militar. Pelo contrário: a corrupção se sofisticou. A partir dos anos 1980, sob a presidência de João Havelange, que comandou a CBD (1958–1974) e depois a FIFA (1974–1998), iniciou-se um ciclo de internacionalização da corrupção no futebol. Seu sucessor na CBF, Ricardo Teixeira, genro de Havelange, aprofundou esse modelo. Teixeira presidiu a CBF por 23 anos, até renunciar em 2012 em meio a múltiplas denúncias de corrupção.
Apenas para lembrar alguns dos nomes envolvidos em escândalos:
• Ricardo Teixeira (1989–2012) – Renunciou após denúncias de recebimento de propinas da ISL, empresa de marketing esportivo, e de enriquecimento ilícito. Foi investigado no Brasil e nos EUA.
• José Maria Marin (2012–2015) – Preso na Suíça, extraditado e condenado nos Estados Unidos em 2017 por corrupção, fraude bancária e lavagem de dinheiro no escândalo conhecido como FIFA Gate.
• Marco Polo Del Nero (2015–2017) – Também indiciado pelos EUA por corrupção, encontra-se banido do futebol pela FIFA. Diferente de Marin, evitou a extradição por permanecer no Brasil.
• Rogério Caboclo (2019–2021) – Afastado por assédio moral e sexual a funcionárias da CBF. Teve gestão marcada por autoritarismo e blindagem das federações estaduais.
• Ednaldo Rodrigues (2022–2023) – O caso mais recente. Afastado da presidência da CBF em dezembro de 2023 por decisão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, que considerou ilegal o acordo firmado entre o Ministério Público e a CBF que o levou ao poder. O TJ-RJ entendeu que a eleição que o reconduziu à presidência foi fruto de manobra irregular e determinou nova eleição. Ednaldo, primeiro presidente negro da entidade, resistiu à decisão com apoio da FIFA, gerando uma grave crise institucional, com ameaças de suspensão da Seleção Brasileira de competições internacionais.
Esse episódio escancarou mais uma vez como as federações estaduais — muitas dirigidas há décadas pelas mesmas figuras — operam como o coração do fisiologismo esportivo. Foram essas federações que votaram em massa em Ednaldo Rodrigues, e são elas que, agora, movimentam os bastidores para escolher seu próximo representante, sem qualquer participação efetiva da sociedade civil ou dos torcedores.
Todos esses dirigentes foram eleitos — ou reeleitos — com os votos das federações estaduais, que funcionam como currais eleitorais e braços operacionais de um sistema viciado. A imprensa corporativa, por sua vez, historicamente blindou os caciques da CBF, exceto quando os escândalos vazaram para a justiça internacional.
Jornalistas independentes, como Juca Kfouri, foram processados reiteradas vezes por denunciar essas práticas. Kfouri foi um dos primeiros a expor os esquemas de Ricardo Teixeira e os bastidores sombrios da gestão Havelange. Seu compromisso com a verdade o transformou em alvo preferencial de processos judiciais movidos por aqueles que se diziam “patriotas” enquanto pilhavam o futebol nacional.
As relações entre a CBF, empresários de jogadores, patrocinadores e a grande mídia formam um ecossistema autorreferente. A estrutura foi feita para se proteger de qualquer tentativa de reforma séria. E quando o barulho fica alto demais, afastam-se os dirigentes da vez — sempre substituídos por outros membros da mesma engrenagem.
Não haverá transformação verdadeira enquanto o futebol brasileiro for refém desse sistema. A corrupção na CBF não é uma exceção — é a regra. E como toda estrutura corrupta, ela sobrevive porque encontra cumplicidade, silêncio e omissão por todos os lados.







0 comentários