Por Geraldo de Majella*
A disputa por votos no campo da extrema-direita em Maceió tem levado dois dos vereadores mais reacionários da capital, Leonardo Dias (PL) e Delegado Tiago Prado (União Brasil), a uma corrida por protagonismo num tema sensível e complexo: o tratamento de dependentes químicos. Ambos já anunciaram pré-candidatura a deputado estadual em 2026 e têm apostado no populismo penal para cavar espaço entre o eleitorado mais conservador e punitivista, mesmo que isso custe a saúde, a dignidade e os direitos humanos de uma das populações mais vulneráveis da cidade.
Em comum, os dois adotam discursos agressivos contra a esquerda, defendem o armamento da população e fazem ecoar propostas de repressão como forma de enfrentar o uso de drogas. O problema é que a política pública sobre drogas — por mais que exija respostas firmes — não pode ser conduzida com base em autoritarismo, oportunismo eleitoral e desinformação.
Uma disputa pelo “nicho” dos dependentes químicos
O “nicho eleitoral” em questão são justamente os dependentes químicos e suas famílias, tratados não como sujeitos de direito, mas como peças de marketing político. Leonardo Dias viajou recentemente a São Paulo para conhecer o modelo adotado pelo vice-prefeito da capital paulista, coronel reformado da PM Ricardo Mello Araújo — indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e ex-comandante da ROTA — que tem em sua ficha oito inquéritos policiais por homicídios durante sua atuação na corporação.
O suposto “modelo paulista” consiste na repressão policial e na dispersão forçada da Cracolândia, realizada sem articulação com a rede de saúde, assistência e moradia. Dias volta a Maceió elogiando o que chamou de “retomada da ordem” no centro de São Paulo — que, na prática, resultou apenas na migração das cenas de uso para outras áreas da cidade, agravando a vulnerabilidade dos usuários.
Tiago Prado, por sua vez, foi até Blumenau (SC) visitar centros de internação compulsória e vem defendendo abertamente que Maceió adote a mesma estratégia. Internações forçadas, no entanto, já foram alvo de manifestações contrárias do Ministério Público de Alagoas, que alerta para a ilegalidade de internações involuntárias sem laudo médico e ordem judicial, além da ausência de estrutura mínima da saúde pública na capital para justificar qualquer medida de privação de liberdade.
Maceió sem política pública de verdade
É importante lembrar: Maceió não conta hoje com nenhum centro municipal estruturado de atenção psicossocial voltado à dependência química, como um CAPS-AD 24h. Faltam profissionais, equipamentos, articulação com políticas de habitação e assistência. O que há é improviso, carência crônica e silêncio do Executivo.
Nesse cenário, propostas autoritárias de repressão e encarceramento — muitas vezes travestidas de “salvação” para os dependentes — se tornam armas retóricas de campanha. A saúde mental e física dos usuários, no entanto, não entra na conta. Não há debate sério sobre redução de danos, reinserção social, nem escuta qualificada às famílias. Há apenas barulho.
A cracolândia como espetáculo
Leonardo Dias e Tiago Prado parecem beber da mesma fonte: o uso midiático da dor e da miséria humana como vitrine eleitoral. A “cracolândia” vira espetáculo, e os usuários de drogas, figurantes involuntários de campanhas montadas sobre preconceito, ignorância e violência.
Não se trata de negar a gravidade do problema. A dependência química exige respostas do Estado — mas respostas baseadas em evidências científicas, políticas públicas integradas, respeito aos direitos humanos e, sobretudo, responsabilidade ética.
Tratar o tema com oportunismo e demagogia só aumenta o sofrimento dos que mais precisam de acolhimento, cuidado e alternativas reais.
*Historiador e jornalista








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