A cada temporada de chuvas em Maceió, repete-se um enredo trágico: ruas alagadas, bairros submersos, famílias desabrigadas. Mas o ciclo não se encerra com o fim da chuva. Nas semanas seguintes, longe das câmeras e das falas oficiais, outras vítimas surgem — caladas, invisíveis, morrendo em silêncio nas UTIs e enfermarias dos hospitais, vítimas de leptospirose. O poder público, no entanto, parece determinado a manter essas mortes fora do mapa.
Em 2023, após mais uma série de enchentes, a Defesa Civil de Maceió foi categórica: “não houve óbitos”. A frase, fria e seca, contrasta com os dados da própria Secretaria Municipal de Saúde, que apontam o contrário. Só entre 2019 e 2023, foram 140 casos confirmados de leptospirose, com 22 mortes. Em 2022, ano em que a Lagoa Mundaú transbordou e causou alagamentos extensos, foram 44 casos confirmados e 10 óbitos — uma taxa de letalidade de 22,7%, quase três vezes superior à média nacional (8,8%).
A tentativa de higienização política da realidade escancara um projeto de gestão mais preocupado com imagem do que com vidas. A ausência dessas mortes nos registros da Defesa Civil e em relatórios de desastre não é mero descuido técnico — é uma escolha. Uma escolha deliberada de apagar do discurso público os corpos que não cabem no marketing institucional.
A leptospirose, doença infecciosa causada pela bactéria Leptospira, é amplamente conhecida por se espalhar em ambientes contaminados por urina de rato — justamente o que prolifera nas zonas alagadas das periferias urbanas. As chuvas não matam apenas pela força das águas. Matam depois, no silêncio das semanas seguintes, nas casas sem saneamento, nos becos encharcados, nos postos de saúde despreparados.
Ainda assim, esses mortos não entram nos cálculos da tragédia oficial. Ficam restritos à dor das famílias, à lembrança dos vizinhos, à ausência sentida, mas não reconhecida. Nenhum obituário público, nenhuma nota de pesar, nenhum pronunciamento. Apenas o silêncio e a negação.
Essa negação sistemática tem um nome: apagamento institucional. Trata-se de uma estratégia perversa que não se limita a Maceió, mas encontra aqui um terreno fértil para florescer — com uma gestão populista que se recusa a enfrentar as consequências reais das enchentes e aposta na manipulação de dados para fabricar uma narrativa de eficiência.
Ao esconder os mortos, o poder público distorce a realidade, mina a confiança da população e sabota o próprio planejamento futuro. Sem a contabilidade completa dos impactos, como construir políticas públicas de verdade? Como preparar a cidade para os próximos ciclos de chuva?
A resposta, até aqui, tem sido a omissão. Enquanto isso, a população segue vulnerável. A cada novo alagamento, novas infecções. A cada nova internação, mais uma chance de morte silenciosa. O que resta são estatísticas frias — e mesmo essas, manipuladas.
Maceió precisa romper esse ciclo. A verdade não pode continuar sendo uma vítima das enchentes. E os mortos, ainda que esquecidos pelas planilhas do poder, merecem ser lembrados. Porque uma cidade que esconde seus mortos também está matando sua própria dignidade.







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