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O país onde o topo é ladeira

por | 27 jun, 2025

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Reprodução/Internet

Por Duse Leite (@duseleite)

Eu não sou especialista em política. Não conheço a fundo todas as engrenagens do sistema, nem domino os jargões jurídicos ou acompanho cada sessão no Congresso. Mas tenho algo que, para mim, é essencial: meu senso de justiça. Meu senso crítico. E nos tempos que correm, eles andam inquietos — porque está cada vez mais difícil acreditar que alguém consiga ocupar um cargo público, especialmente político, e sair ileso.

A impressão é que a cadeira do poder vem com armadilhas embutidas. Você senta e já precisa lidar com esquemas antigos, promessas herdadas, acordos subterrâneos, chantagens sutis. E se não joga o jogo, te tiram do tabuleiro. Se joga, te engolem. A sensação é de que o sistema te suja antes mesmo de você sujar as mãos.

Nos últimos anos, temos visto uma sequência de ex-presidentes sendo investigados, condenados, presos ou politicamente exilados. Alguns merecem, sem dúvida. Outros talvez não. Mas o fato é que isso deixou de ser exceção e passou a parecer regra. A prisão de um ex-chefe de Estado deveria ser um evento extraordinário, sinal de uma democracia madura e justa. Mas no Brasil, virou rotina — e isso é, no mínimo, preocupante.

Essa normalização revela algo mais profundo: o problema não está apenas nas pessoas, mas nas estruturas que sustentam o poder. Talvez o erro não esteja só em quem governa, mas no modelo que foi armado no país — um modelo onde o poder é quase sempre contaminado, onde a ética é sacrificada em nome da governabilidade, e onde a justiça caminha devagar, tropeçando em suas próprias contradições.

Como cidadã comum, olho tudo isso com uma mistura de descrença e tristeza. A política, que deveria ser um espaço de construção coletiva e responsabilidade pública, se tornou um território de desconfiança, desgaste e medo. E quem tem princípios acaba se afastando — o que só fortalece os que não os têm.

Ainda assim, sigo acreditando que é possível fazer diferente. Que o poder pode, sim, ser um lugar de serviço, e não de sobrevivência. E que o senso de justiça, mesmo vindo de quem não ocupa cargo algum, pode ser um instrumento poderoso de mudança.

Porque se aceitarmos, com naturalidade, que ninguém sai limpo da política, então já perdemos muito mais do que eleições: perdemos a esperança de um país justo.

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