O Dia Mundial de Conscientização sobre o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), celebrado em 13 de julho, chama atenção para um desafio que acompanha a maior divulgação sobre o transtorno: o crescimento de diagnósticos feitos sem avaliação clínica adequada e o uso incorreto de medicamentos.
Considerado um dos transtornos do neurodesenvolvimento mais comuns na infância, o TDAH atinge entre 5% e 8% da população mundial, segundo a Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA). A condição é caracterizada por sintomas persistentes de desatenção, impulsividade e hiperatividade, que podem afetar o desempenho escolar, a convivência social e o desenvolvimento emocional quando não há acompanhamento adequado.
Para o neuropediatra Flávio Santana, ampliar o acesso à informação é fundamental, mas é preciso evitar interpretações equivocadas, principalmente nas redes sociais.
“Hoje existe muito mais informação sobre o TDAH, o que ajuda muitas famílias a procurarem atendimento. Ao mesmo tempo, observamos um aumento da desinformação. Nem toda criança agitada, inquieta ou desatenta tem TDAH. O diagnóstico exige uma avaliação clínica detalhada e não pode ser baseado apenas em um comportamento isolado ou em testes rápidos”, afirma.
Segundo o especialista, o diagnóstico é feito exclusivamente por meio de avaliação clínica, levando em conta o histórico do paciente, entrevistas com familiares, informações da escola e critérios reconhecidos internacionalmente.
“Não existe exame de sangue, tomografia ou ressonância que confirme o TDAH. O diagnóstico depende de uma investigação cuidadosa. Quando ele é feito de forma precipitada, existe o risco de tratar uma criança que não tem o transtorno ou deixar sem assistência quem realmente precisa”, explica.
Dados do Sistema de Informações Ambulatoriais do SUS mostram que o Brasil registrou mais de 229 mil atendimentos de crianças com TDAH em 2022. Estudos indicam ainda que a maior concentração de diagnósticos ocorre entre 5 e 9 anos, com predominância em meninos.
Pesquisas apontam também que cerca de 70% das crianças com TDAH apresentam ao menos uma condição associada, como ansiedade, transtornos de aprendizagem, transtorno opositor desafiador ou alterações do desenvolvimento, o que reforça a importância de um acompanhamento especializado.
Tratamento envolve diferentes estratégias
Embora não tenha cura, o TDAH possui tratamento eficaz. Estudos apontam que aproximadamente 70% dos pacientes apresentam melhora significativa dos sintomas quando recebem acompanhamento adequado.
O neuropediatra destaca, porém, que o tratamento não deve ser reduzido ao uso de medicamentos.
“Quando indicada, a medicação é apenas uma parte do tratamento. Ela deve ser prescrita por um especialista, com acompanhamento contínuo e ajustes individualizados. O melhor resultado acontece quando o tratamento reúne orientação à família, intervenções comportamentais, participação da escola e acompanhamento médico”, afirma.
Flávio Santana também alerta para os riscos da automedicação e da interrupção do tratamento sem orientação profissional.
“Os medicamentos utilizados para o TDAH têm indicação precisa e exigem controle médico. Ajustar doses, trocar medicamentos ou interromper o tratamento por conta própria pode comprometer a evolução da criança e aumentar o risco de efeitos adversos”, diz.
A participação da família e da escola também é considerada essencial. Professores geralmente são os primeiros a perceber dificuldades persistentes de atenção, organização ou impulsividade, enquanto os pais contribuem com informações sobre o comportamento da criança em casa.
Para o especialista, a integração entre todos os envolvidos permite acompanhar a evolução do paciente e ajustar as estratégias de cuidado.
“O objetivo do tratamento não é mudar quem a criança é, mas oferecer condições para que ela desenvolva plenamente suas capacidades. Com diagnóstico no momento certo e acompanhamento adequado, ela pode ganhar autonomia, melhorar o desempenho escolar, fortalecer a autoestima e construir relações sociais mais saudáveis”, conclui.
Neste Dia Mundial do TDAH, especialistas reforçam que informação de qualidade, diagnóstico criterioso e acompanhamento multidisciplinar são os principais caminhos para melhorar a qualidade de vida de crianças, adolescentes e adultos que convivem com o transtorno.





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