Por Mácleim Carnerio*
Lá, nos meados dos anos 1980, três jovens senhores se reuniram para ensaiar uma apresentação que fariam no Circo Voador. Um, era baixista. O outro, percussionista. O terceiro, era o canário do trio e gerente de um estúdio de ensaios. O ensaio foi marcado para acontecer numa tarde modorrenta de um sábado carioca, onde o samba corre solto nos botequins, faça chuva ou faça sol.
Pois bem, assim que o baixista chegou, ainda nervoso e apreensivo, foi logo contando que havia sido parado numa blitz da PM e que os policias ficaram desconfiados da bag do seu contrabaixo. Provavelmente, achando que nela poderia ter um fuzil. O que não era nada difícil de imaginar, pelas características do baixista e da bag.
Enquanto escutava os detalhes do ocorrido, o percussionista tirava de um pote um tanto de cannabis sativa e construía um pujante baseado, para o trio abrir os chacras e o ensaio rolar psicoativo e fluentemente flutuante. Quando os três já estavam finalizando o processo das tragadas profundas e fumegantes, eis que toca o interfone do estúdio.
Surpresos com a intercorrência, pois naquele dia o estúdio só seria usado por eles e, além disso, o estúdio situava-se na última casa de uma rua sem saída, portanto, só ia lá quem tinha o que fazer, imediatamente, rolou um clima de suspense no ar. Diga-se de passagem, já bastante afumado e denunciador. Na posição de gerente do estúdio, o canário da banda foi atender ao interfone. Segundos depois, um tanto aflito e assustado, anunciou: É a Polícia!
Criou-se um caos instantâneo, elevado à potência dos efeitos primitivos da cannabis. A primeira providência foi abrir todas as janelas, enquanto o percussionista, desesperadamente, jogava o seu precioso potinho num resto de Mata Atlântica, que margeava o estúdio. Por sua vez, o baixista, também desesperadamente, espargia em profusão um spray de Bom Ar em todo o ambiente e repetia nervoso: “Tá vendo, eles vieram atrás de mim. Eles vieram atrás de mim!”
Providências tomadas, o gerente tentava manter a calma, pois era ele quem iria subir a extensa rampa, que dava acesso ao estúdio, para falar com os policiais que o aguardavam na rua. Foi o mais longo trajeto da sua vida. A cada passo ele torcia para que o vermelho nos olhos ainda não fosse suficiente o bastante para denunciá-lo de vez. Sem falar nas consequências trabalhistas. Finalmente, ele abriu a porta e deu de cara com dois policiais e uma viatura, para o seguinte diálogo:
– Boa tarde, pois não…
– Boa tarde, senhor! É aqui que vai ter a gravação de uma novela da Globo?
– Aqui? Não!
– É que nós temos uma solicitação da Rede Globo, para interditar essa rua.
No +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!
(*) É jornalista, cantor e compositor








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