Por Neirevane Nunes*
Enquanto a população dos bairros do Pinheiro, Bebedouro, Bom Parto, Mutange e Farol de Maceió amargam os danos, violações e sofrimento permanente causado pela mineração criminosa de sal-gema, resistindo e lutando por justiça, outras comunidades seguem totalmente à margem do processo de reparação. Apesar de conviverem com os riscos, os episódios de acidentes, danos materiais, adoecimento físico e mental e insegurança, a população dos bairros do Pontal da Barra e do Trapiche da Barra, vizinhos da unidade da mineradora, acumulam violações históricas.
Cravada numa área ambientalmente imprópria pra esse tipo empreendimento desde a década de 70, a unidade da Braskem no Pontal, opera por décadas sem qualquer controle social efetivo, impondo à população local uma rotina de insegurança e silenciamento.
Entre os episódios de acidentes ocorridos nesta unidade, se destacam: o vazamento de gás cloro na noite de 21 de maio de 2011, intoxicando 152 pessoas, entre elas 22 crianças (UOL, 2011) e o acionamento de um suposto alarme falso de evacuação em 2023. O alarme levou a população ao desespero, pessoas correram pelas ruas, houve pânico generalizado, equipes da SAMU e Corpo de Bombeiros fizeram atendimentos no local e não houve responsabilização por danos morais coletivos por parte da mineradora. Até hoje, os moradores relatam dúvidas sobre o que de fato aconteceu. O que era para ser um sistema de alerta tornou-se mais um símbolo da negligência com que esses bairros são tratados.
A indiferença institucional diante desses episódios contrasta com a postura adotada em outros estados. Em Minas Gerais, por exemplo, falsos alarmes de mineradoras resultaram em indenizações por danos morais coletivos, reconhecendo o sofrimento e o transtorno causados à população. Em Alagoas, ao contrário, sequer houve uma apuração rigorosa do ocorrido em 2023. E essa situação não é nova, quem teve a oportunidade de ler o livro Daqui só saio o pó: Salgema e o Pontal da Barra, da socióloga Maria do Carmo Vieira, publicado em 1997, sabe dos impactos que já eram denunciados em relação à antiga Salgema (atualmente Braskem) sobre a vida no Pontal e Trapiche. Nele a autora conseguiu resgatar a memória de lutas populares por segurança, saúde e direito ao território e mostrou como os moradores resistiram ao avanço dessa indústria poluidora e perigosa, enfrentando a omissão das autoridades e os danos ambientais sofridos diariamente.
A reparação aos atingidos do Pontal e Trapiche pelas atividades da Braskem não é apenas legítima, mas muito tardia, a reparação que ainda não veio é outra forma de violência. E ignorar também sofrimento dessas comunidades, além das que foram atingidas nos 5 bairros destruídos, é perpetuar o ciclo de injustiça. O medo constante, a desvalorização dos imóveis, o adoecimento físico e emocional da população, os episódios de vazamentos e o desprezo institucional não podem continuar sendo tratados como “normais”. É hora de reconhecer também o Pontal da Barra e Trapiche como territórios atingidos e incluí-los nos processos de reparação da Braskem, pois já fazem parte do passivo ambiental da mineradora há décadas.
*Bióloga e doutoranda no Programa de Pós-graduação Sociedade, Tecnologias e Políticas Públicas (Sotepp/Unima)






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