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As telas e os olhos pequenos que nos observam

por | 19 jul, 2025

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Reprodução | Internet

Por Eleonora Duse de Pontes Leite*

Assisti neste domingo a uma entrevista no Domingão com dois médicos — um deles, americano, escreveu um livro inteiro sobre a ansiedade entre adolescentes e jovens. A causa? O uso excessivo das redes sociais e das telas. Confesso que aquilo me inquietou mais do que eu esperava.

Talvez porque eu tenha três netas. Três meninas lindas, em fases tão diferentes da infância: uma de sete anos, já esperta, cheia de frases prontas e danças do TikTok; outra de três, que mal aprendeu a falar e já desliza o dedo na tela como quem nasce sabendo; e uma de cinco meses, que ainda não pega no celular, mas já sorri quando vê a luz da televisão.

É claro que elas adoram telas. E como não adorariam? As telas são coloridas, barulhentas, interativas, mágicas. Mas ali, entre uma frase e outra do especialista, ouvi o que talvez muitos preferissem ignorar: o excesso de exposição digital pode estar moldando não só o comportamento, mas também o cérebro das nossas crianças.

Fiquei pensando: que tipo de infância estamos oferecendo a elas? A infância do toque ou do toque na tela? Do brincar com terra ou com pixels? Dos livros de pano ou das animações em looping?

Eu fui criança. Brinquei de estátua, de queimado, de boneca, de cozinhado. Corri na rua, joguei pedrinhas, ximbra, joguei bola. Subi em árvore. Andei de bicicleta, de patins. Eu não sou da era da tecnologia. Eu aprendi a usá-la — como quem aprende outro idioma. Mas eu vivi uma infância inteira antes disso. E foi essa infância de pés no chão e vento no rosto que me deu estrutura.

É disso que nossas crianças estão precisando: de tempo livre para serem crianças. De não serem estimuladas o tempo todo por uma tela que nunca para. De aprender a esperar, a se entediar, a imaginar. Porque é aí que nasce a criatividade, a empatia, o pensamento próprio.

Por isso, parabéns à decisão de proibir o uso de celulares em sala de aula. Ao menos ali, entre quatro paredes e carteiras alinhadas, nossos pequenos têm a chance de olhar nos olhos uns dos outros, de contar o que sonharam o que viveram o que brincaram. De conviver. De socializar. De rir lado a lado, e não por uma tela no meio. Porque é insubstituível ter uma criança ao vivo ao nosso lado — com voz, cheiro, gestos e presença real — em vez de mais um avatar, mais uma mensagem fria.

Deixem as telas para quando tiverem seus 14 anos, com um corpo mais formado, uma mente mais forte. Porque antes disso, tudo está em formação. Tudo é mais frágil. Tudo marca mais fundo.

Não quero aqui demonizar a tecnologia. Sei que ela também ensina, entretém, aproxima. Mas algo me diz que estamos nos afastando, mesmo quando parece que estamos perto. Há um vazio silencioso entre o olhar fixo de uma criança e a resposta automática de um vídeo qualquer.

Por isso escrevo. Escrevo para mim, para minhas netas, para seus pais, para outras avós e avôs que compartilham do mesmo dilema. Não é um manifesto contra o digital. É um lembrete afetuoso de que a infância precisa de chão, de vento, de tempo livre. De silêncios e de conversas. De abraços que não travam, de histórias contadas com a voz e não com o algoritmo.
Porque os olhos pequenos nos observam. E mais do que nos ouvir, eles nos imitam.

(*) É graduanda em Jornalismo

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