Por Eleonora Duse de Pontes Leite*
Outro dia me peguei parada diante da televisão, meio distraída, meio curiosa, quando surge ele: Ronaldo, o fenômeno. Ex-craque, dono de time de futebol, empresário de sucesso. E lá estava, latinha de cerveja na mão, sorriso no rosto, numa plateia cheia de jornalistas, convidados, brindando à Brahma. Um comercial bonito, bem produzido, daqueles que dá vontade de abrir uma também, mesmo sem sede.
E eu, que sou de um tempo não tão distante, lembrei logo dos comerciais do cigarro. Homens bonitos, chapéu de vaqueiro, cavalos galopando, fazendas ao fundo, uma liberdade que vinha junto com a fumaça. Só que aqueles comerciais sumiram. Foram banidos, proibidos. Disseram, com toda razão, que era um perigo associar charme, sucesso e aventura ao cigarro.
Mas… e a cerveja? Não tem perigo, não? Não tem risco nesse brinde televisionado?
A Skol passa na TV, a Brahma com seus “brahmeiros”, a Ivete Sangalo com sua latinha de Devassa, as festas na praia, o riso fácil, o mundo perfeito que vem numa lata gelada. E eu penso: é o mesmo truque, só trocaram o cavalo pela lata, a fazenda pelo barzinho, o cigarro pela cerveja. Só mudaram o cenário, mas o roteiro é o mesmo — felicidade líquida, vendida em horário nobre.
Aí, claro, vêm aquelas campanhas educativas: “Se beber, não dirija”; “Passe a chave”; “Chame um Uber”; “Vá de ônibus”. O problema não é beber, o problema é dirigir — é isso que querem que a gente pense. Bebida pode, bebida vende, bebida é alegria, desde que você não pegue no volante. Mas quem disse que o único problema da bebida é o trânsito?
Quantos lares desfeitos, quantos jovens perdidos, quantas histórias encerradas antes da hora… tudo embalado naquela lata bonita da propaganda. Mas ninguém fala disso no comercial, porque tristeza não vende, né? Só vende o sorriso, a espuma, a felicidade de alumínio.
O cigarro saiu de cena, mas a cerveja segue no palco, aplaudida, brindada, promovida. Vai ver, falta coragem pra tratar o álcool como ele é. Ou vai ver, é mais fácil fechar os olhos, abrir uma latinha e brindar como se nada estivesse acontecendo.
E eu fico aqui, olhando, pensando: que outras mentiras bonitas ainda vão vender pra gente?
(*) Graduanda em Jornalismo — Faculdade Estácio.





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