Por Geraldo de Majella*
Maceió é uma cidade de contrastes gritantes. À beira do mar, o cartão-postal. Nas bordas esquecidas, a exclusão. No centro histórico, fachadas encobertas por letreiros escondem memórias desfiguradas.
Em outras partes, comunidades inteiras são deslocadas pela força de interesses econômicos que tratam o espaço urbano como mercadoria. A ganância de poucos sufoca os direitos de muitos. Bens coletivos são apropriados por agentes privados, vozes são silenciadas, histórias apagadas — como se o apagamento da memória fosse condição para a manutenção da desigualdade.
Por trás da beleza natural, existe uma Maceió invisível, marcada por ausências: de moradia digna, de mobilidade urbana eficiente, de acesso justo à saúde, à cultura, à educação, ao direito à cidade. Essa invisibilidade não é acidental — ela é produzida e reproduzida por escolhas políticas e econômicas. Parte da população é empurrada para as margens, não só geográficas, mas também simbólicas, onde a cidade deixa de garantir pertencimento e dignidade.
Ainda assim, Maceió resiste. Resiste nos becos, nos mercados, nos quintais das periferias, nas festas populares e na arte que brota das frestas. Resiste na força das mulheres, dos trabalhadores, dos jovens, das lideranças comunitárias, dos que insistem em ocupar a cidade, apesar das violências que tentam expulsá-los. Há uma cidade viva que pulsa sob a cidade visível — e é nela que habitam a esperança e a possibilidade de reinvenção.
Como escreveu Ítalo Calvino, “as cidades, como os sonhos, são construídas de desejos e de medos.” (As Cidades Invisíveis, p. 44).
Maceió também é isso — um território de desejos frustrados e medos cotidianos, mas também de luta e reinvenção. Para além do marketing turístico, há uma cidade real, concreta, silenciada, que precisa ser reconhecida, protegida e transformada.
O desafio é este: fazer durar — e florescer — o que não é inferno nas cidades que habitamos e nas que ainda podemos construir com justiça, afeto e dignidade.
*Historiador e jornalista








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