Após quatro décadas de exploração predatória de sal-gema em Maceió e sete anos após os primeiros tremores de terra que destruíram cinco bairros da capital alagoana, o presidente da Braskem, Roberto Ramos, reconheceu publicamente, em entrevista ao UOL, que a empresa foi responsável pelos afundamentos que mudaram para sempre a vida de dezenas de milhares de pessoas. A declaração marca a primeira admissão formal da empresa desde o agravamento da tragédia em 2018.
“Quando aconteceram os afundamentos, quando ficou claro que, na verdade, a razão era de alguma forma ligada à exploração das minas, a Braskem parou de explorar as minas e, portanto, nunca mais vai se envolver nisso. Isso que aconteceu não vai se repetir”, disse Ramos, no videocast UOL Líderes.
A fala acontece em um momento de pressão crescente por justiça e reparação integral, especialmente das comunidades ainda desamparadas, como os Flexais e o Marquês de Abrantes, em Maceió. Desde 2018, mais de 60 mil pessoas foram removidas de suas casas por conta da instabilidade geológica provocada pelas cavidades abertas pela mineradora.
Entre 1977 e 2018, a Braskem — sucessora das empresas Salgema S.A. e Trikem — operou de forma ininterrupta na extração de sal-gema do subsolo da capital alagoana. O modelo de mineração adotado comprometeu uma extensa área urbana, incluindo os bairros do Pinheiro, Mutange, Bebedouro, Bom Parto e parte do Farol, que tiveram de ser evacuados às pressas.
O passivo ambiental e humano deixado pela Braskem é imenso: rachaduras, crateras, deslocamentos compulsórios, danos psicológicos e materiais irreparáveis. Durante décadas, a empresa vem recebendo bilhões de reais em isenções fiscais concedidas pelo Estado de Alagoas, que favoreceram suas operações mesmo diante dos riscos e impactos ambientais que vinham se acumulando. Agora, só anos após o colapso, a Braskem reconhece a tragédia.
Segundo Roberto Ramos, a empresa ainda levará dez anos para concluir o preenchimento das minas que provocaram o afundamento. Enquanto isso, milhares de alagoanos seguem sem reparação integral.
A história da Braskem em Alagoas é marcada por acidentes ambientais com vítimas, inclusive fatais, e por um modelo de desenvolvimento excludente que impediu, desde o início, o pleno desenvolvimento de bairros como Trapiche da Barra e Pontal da Barra.
Ao anunciar que não voltará a minerar sal-gema e que está preenchendo as cavernas com areia e água, Roberto Ramos tenta reconstruir a imagem da empresa. Porém, para milhares de alagoanos, a devastação deixada pela Braskem continua sendo uma ferida aberta — e a reparação, longe de ser justa ou suficiente.






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