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Cultura, Patrimônio e Ancestralidade

por | 31 jul, 2025

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Mãe Mirian. Foto: Posú Betá

Por Klinger Silva*

O Patrimônio Histórico e Cultural comporta bens e valores importantíssimos para a vida individual e coletiva. De fato, possibilita, através de seu amplo reconhecimento público e análise crítica-interpretativa acadêmica, e principalmente popular, a construção de pontes simbólicas entre o passado, o presente e o futuro. Promovendo, desta maneira, inferências sobre aquilo o que somos, o que fomos e o que poderemos ser.

 

Percebe-se que, ao preservarmos e atualizarmos nossas memórias, operacionalizando-as, valorizando-as e publicizando-as através do debate amplo em torno de princípios “radicais-democráticos” estruturadores e potencializadores da participação cidadã na construção da justiça social e econômica, na democratização do acesso à cultura, no desbloqueio e mitigação dos antigos lugares e lógicas inflexíveis de controle cultural; contribuir-se-ia, de certa forma, para níveis mais avançados e elevados de convivência e harmonia coletiva, por meio da construção de pontes de entendimento, de paz e de justiça.

 

Dito isto, é inegável a riqueza cultural patrimonial de nosso país e em particular de Alagoas. Tais valores e bens patrimoniais, especialmente aqueles representados por nossa herança ancestral, poderiam ser, como instrumentos disruptivos e transformadores, fatores concretos de mudanças sociais qualitativas.

 

O que nos levaria inexoravelmente a refletir e perguntar se valorizamos verdadeiramente o nosso rico Patrimônio Histórico e Cultural: Conhecemos profundadamente nossos espaços museológicos e seus importantes acervos? O que representavam, representam e poderão representar para as diversas camadas sociais aquelas personalidades históricas materializadas em bustos e estátuas que ora se encontram em nossas praças e espaços públicos? Fazemos o suficiente para a preservação dos monumentos e edificações históricas tombados ou não pelo poder público? Cuidamos, adequadamente, de nosso valioso patrimônio natural-ambiental? A acessibilidade, a sustentabilidade e o respeito a diversidade na construção da fruição e educação patrimoniais são devidamente contemplados? Como, por quem e para quem é tratada, interpretada e operacionalizada a Memória Coletiva? Em que medida as nossas melhores tradições culturais e religiosas, em especial aquelas de origem afro-brasileira, são devidamente valorizadas, compreendidas e aceitas sem os imensos preconceitos e violências associadas de todo tipo por nós tão conhecidos e também perpetuados historicamente? Além de muitas outras questões cruciais relacionadas, cujas respostas são marcadamente urgentes e necessárias.

 

Marechal Deodoro. Foto: Marcelo Albuquerque

Por outro lado, o debate público, não exclusivamente acadêmico, com sua escuta, reflexão, palavra e a ação popular, poderia apontar alguns caminhos para a promoção de ideias-elucidativas, em nosso “singular” contexto sociocultural, de forma ampla e democrática. Os bens e valores patrimoniais são mais do que apropriados para a criação essencial da massa crítica sociopolítica-cultural.

 

Os elementos e formas que constituem o vasto e rico patrimônio histórico e cultural de Alagoas são sínteses simbólicas perfeitas, representativas da totalidade cultural de nosso ser sócio-histórico. E são, ainda, aptas à promoção de profundas reflexões individuais e comunitárias sobre as dimensões estruturais e sistêmicas da vida, da memória e do devir histórico.

 

Entende-se, segundo esta ordem de ideias, que a funções patrimoniais aqui superficialmente alentadas, se potencializariam enormemente quando associadas as diversas e múltiplas práticas culturais conhecidas. Nestes termos, entende-se que existe uma relação de influência recíproca e positiva entre patrimônio e exercício cultural. Atividades Artísticas, Conferências Acadêmicas, Festivais, Rodas Literárias, entre outros; em conexão dinâmica com acervos, monumentos e outros patrimônios materiais e imateriais, impulsionam qualitativamente tanto estas formas de exercício de cultura quanto o próprio valor simbólico do patrimônio.

 

É perceptível quando múltiplas formas de arte, atividades lúdicas e de conhecimento popular e científico acontecem em espaços de memória (museus e afins); em volta de monumentos e conjuntos arquitetônicos históricos, de elementos patrimoniais imateriais, como: tradições religiosas ancestrais; culinária; estilos musicais consagrados socialmente; linguagens e técnicas singulares, entre outros; valorizam fortemente o patrimônio e reflexamente são potencializadas.

 

Esta dinâmica interativa e complementar pode servir como fundamento de estratégias relacionadas com a abertura e o acesso democráticos à instituições culturais, promoção do debate crítico sobre e entre narrativas histórico-sociais oficiais e não-oficiais, proteção social dos patrimônios contra medidas autoritárias “anti-patrimoniais”; potencialização de atividades de lazer associadas à educação patrimonial e “integração” de grupos socialmente segregados, estigmatizados e precarizados economicamente. Além de dar visibilidades às más gestões institucionais e incentivar a construção das melhores políticas públicas culturais na direção dos interesses de amplos setores da sociedade.

 

Catedral Metropolitana de Maceió. Foto Marcelo Albuquerque

Políticas públicas assertivas na área cultural e patrimonial são cada vez mais necessárias e urgentes para o impulso de nossa grande capacidade criativa, para que se reconheçam, preservem-se e promovam-se as nossas “melhores tradições simbólicas” não submetidas às lógicas mercadológicas-massificadoras do hiperconsumo cultural contemporâneo e redutoras do desenvolvimento da massa crítica social tão necessária à tomada em nossas próprias mãos do “melhor sentido da vida”.

 

Pensar, elaborar e executar políticas para o setor cultural em questão, exigiria, de fato, o nosso melhor entendimento sobre aspectos essenciais relativos ao mundo de hoje. Época em que o conflito entre valores culturais autoritários e democráticos toma amplas proporções desagregadoras. Momento histórico em que o local e o global se fundem e em que a dimensão temporal em nossas vidas se transforma rapidamente. Onde os setores sociais precarizados crescem exponencialmente e as narrativas das histórias oficiais operacionalizadas por seus aparatos ideológicos e institucionais, advindas de um passado colonial que insiste em existir estão na verdade em xeque. Nota-se assim, a necessidade premente de ações e estratégias patrimoniais inovadoras e afirmativas daquilo que é mais culturalmente significativo, e daquilo que foi duramente construído e conquistado social e historicamente pelos alagoanos.

 

Neste sentido, temos como medida simbólica exemplar e extraordinária do poder público, o reconhecimento oficial da Ialorixá Mãe Mirian (1934) como Patrimônio Vivo do Estado de Alagoas. O contributo imensurável, relevante, influente e imprescindível para as religiões originárias de matriz Afro-Brasileira em Alagoas e no Brasil, e para o desenvolvimento da Cultura Material e Imaterial, consubstanciado em conhecimentos, saberes, valores, artes e tradições de Mãe Mirian é fundamental para a evolução espiritual e promoção do melhor da vida individual e coletiva regional e nacional.

 

Palácio Floriano Peixoto. Foto: Marcelo Albuquerque

Mãe Mirian (Iya Binan), nascida na cidade de Piranhas (banhada pelas águas do velho Opára), no sertão de Alagoas no início do século XX, quando menina, vivenciou os primeiros sinais de sua energia ancestral, revelados por sua forte mediunidade. Como de regra, é comum em casos semelhantes, uma grande passagem de dores pessoais e familiares, incompreensões e preconceitos diversos, até o momento de revelação espiritual e integração religiosa como o caso de nossa grande sacerdotisa.

 

As divindades das águas conduziram IyáBinan, impulsionando sua vida para o seu assentamento sagrado. Serenidade, Acolhimento, Poder Afetivo e Sabedoria Ancestral são características que transparecem é que se propagam em várias dimensões culturais da vida social brasileira a partir de seu sacerdócio. De tradição Jejê Mina Popô do candomblé, iniciada em Salvador em 1970 pelo notável sacerdote Manoel Falefá, torna-se em seguida a maior liderança do Ilê Nifé Omi Omo Posú Betá (Casa de Amor das Filhas das Águas de Posú Beta) em Maceió. Sua notoriedade materializa-se por meio de muitos títulos, homenagens e atividades culturais, aqui citamos alguns: Comendadora (Comenda Dandara da Câmara Municipal de Maceió – 2023); Membro do Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Social em Alagoas; Delegada Nacional do Setorial do Patrimônio Cultural e Imaterial do Estado de Alagoas; Vice-Presidenta da Federação Zeladora das Religiões Tradicionais Afro-Brasileiras; Símbolo do Combate à Intolerância Religiosa em Alagoas – 2024; Cidadã Honorária de Maceió – 2021; Palestrante – Tombamento da Coleção Perseverança – IPHAN-AL – 2022.

 

A Energia Ancestral herdada e viva, resiliente e persistente, não pode ser negada e tão pouco contida pelos desamores e autoritarismos ainda existentes em suas múltiplas e variadas formas de opressão.

 

(*) Mestre em Patrimônio – FCSH – Universidade Nova de Lisboa.

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