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Dois dedos de prosa sobre Dirceu Lindoso e o seu sertão mítico e picaresco

por | 10 out, 2025

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O ensaísta e poeta alagoano Marcos de Farias Costa está com um novo trabalho para lançar: “A boca da bigorna”, livro de artigos, tópicos e ensaios sobre literatura alagoana e universal, será lançado na 11ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas, no dia 1º de novembro de 2025, a partir das 19h, na Praça de Autógrafos.

Entre os textos que compõem a obra, destaca-se o ensaio “Dois dedos de prosa sobre Dirceu Lindoso e o seu sertão mítico e picaresco”, que integra o conjunto de reflexões reunidas pelo autor. O livro foi editado pela Editora Vitória, em Maceió, e tem 218 páginas.

 

 

Por Marcos de Farias Costa*

A desvalorização do mundo humano aumenta em proporção direta com a valorização do mundo das coisas.
Karl Marx

 

Dirceu Lindoso está com mais dois livros no prelo, de prosa de ficção: O cão pisado e Lagamares, causando certa expectativa no meio literário alagoano devido às suas raras qualidades de escritor. Para Sartre, a literatura seria uma “contestação da linguagem comum” e é por esse viés que Dirceu Lindoso encaixa a sua narrativa, fazendo da riqueza lexical o conteúdo de suas reflexões estéticas e sociais.

 

Coexistem vários Dirceus em um só. Temos o Dirceu professor e jornalista; o sóbrio antropólogo; o historiador de nosso passado colonial; o verbetista erudito da Enciclopédia Mirador; sem esquecer o tradutor tarimbado de Brecht e Louis Althusser e, last but not least, o poeta perigosamente inédito de Cerveja selvagem, volume a sair. Outros preferirão o Dirceu Lindoso ficcionista, que inventa literatura com lirismo e técnica narrativa irretocável. São as várias faces de um autor que não brinca em serviço.

As quatro estórias curtas de O cão pisado nos revelam um sertão mítico e intemporal, contudo não a-histórico, considerando-se que a historicidade aí se funde no fundo realista de sua paisagem natural, embora não haja relógios neste tempo que transcorre em cíclica trama. Bom recapitular o conceito de historicismo em Hegel, para o qual a realidade é sempre redutível à história. Noutro paralelo, Joyce comentaria “que a história é um pesadelo da qual todos nós tentamos acordar”. O narrador agora não é mais um deus onipotente e absoluto, mas atrelado às personagens, que possuem autonomia de voo.

 

Lacan observou que devíamos buscar as origens da obra de arte não no inconsciente, mas nos sintomas: quais seriam, portanto, os sintomas que o ficcionista Dirceu Lindoso apresenta em suas estórias? A constatação de um gigantesco país subdesenvolvido, cuja massa humana sofre as injustiças de uma sociedade dividida em classes? A necessidade de declarar guerra à linguagem convencional do passado? Aqui, transcorrem relatos picarescos de um universo povoado por beatos messiânicos, vaqueiros, ciganos, coronéis, poetas, padres, prostitutas, num mundo rústico e primitivo, entre falas lacônicas e sibilinas, onde se evidencia um caosmos humanizado pela diversidade dos tipos, representados pela sociedade rural-sertaneja. O sertão grande dos meninos geófagos e dos abigeatos, da guerrilha dos cangaceiros e do Padim Ciço, do xaxado e das mucamas e de toda uma vasta constelação humana tão bem capturada pelas lentes de um Glauber Rocha.

 

São quatro relatos interligados, “quadros em exposição”, num imenso painel de nossa vida severina, ou seja, a saga dos pobres e dos alijados das benesses deste mundo, vasto mundo, e alojados no grande sertão. É aqui que se situam as regiões gerais, onde o espaço rural ruge no coração dos homens. João Guimarães Rosa, em carta ao seu tradutor alemão, afirmou que Goethe e Dostoievski eram sertanejos, frase acertadíssima e que passo adiante.

A brevidade desses relatos obrigou o escritor a uma drástica concentração da narrativa, episódios dramáticos em carga explosiva, onde o texto pulsa e em cada expressão se oculta um significado subjacente. E nesses seus dois últimos livros a distinção convencional entre conto, novela e romance cai por terra e é substituída pela substância lírica que comanda a ação. Tanto em O cão pisado como em Lagamares, o conteúdo se dissolve na narratividade. E aqui sentimos um paralelismo entre estas estórias com as epopeias medievais e os velhos romances de cavalaria.

 

Por conseguinte, a narrativa faz-se em tom de oralidade, no monólogo do mendigo Titica Manuel, isolado na solidão das matas alagoanas, contando a sua história, bebendo cachaça e sonhando com um mundo por vir. Porvir. Dessa personagem, é-nos transmitido que “Nasceu em pleno inverno de sant’ana, com o milharal de espigas verdes, e as toras de lenha assando nas fogueiras.” O tom do texto exprime certo regionalismo verbal, mas de outro caleto. O autor nos informa que Titica, um tipo macunaímico, é filho do cigano mendigo Jenengue (Zé Ninguém?) em comércio sexual com uma escrava negra de nome Hortência Fóis. Daí em diante, a prosa corre feito rio, numa exposição onde a linguagem assume o papel de protagonismo e nos deixa a impressão de que se trata de uma narrativa picaresca.

Dirceu Lindoso é o ficcionista dos vagamundos e vagabundos, nas matas gerais deste Nordeste continental, e seus personagens lembram aqueles dos romances espanhóis dos séculos XVI e XVII, cujo Lazarillo de Tormes é o mais legítimo predecessor. Para Croce, o pícaro simboliza o indivíduo pelejando na pobreza, cujo tema é a fome. Aqui, as estórias se entrecruzam com mendigos que se comportam como se fossem teólogos heréticos, mas que não soa falso ou artificial, pois expressa a secular sabedoria popular. Para Titica, “Deus é expectável”, ou, ainda, “Deus é pênsil”, como diz numa de suas falas. E filosofa, em tom de epifania pastoral, que “A Morte se chama Ninguém”. Muitas vezes o linguajar pode ser chulo e bem cru, como: “Mulher, o safado do nosso filho pocou o cabresto da pica e deixou de ser donzelo”, e não faltam expressões impróprias para menores, mas não importa, o texto caminha sem rédeas curtas e sem as gramatiquices da norma culta.

No primeiro capítulo, a máquina do mundo volta-se para o personagem Titica, inventariando as coisas em redor e inventando nobiliarquias inverossímeis. Dirceu Lindoso recria seu mundo — de privações e nobrezas — demonstrando um esplêndido domínio plástico da linguagem. São conversas ao pé do fogo, onde homens contam causos e a memória parece mais geral que particular. A matéria rural é o fundamento básico na utilização dessas matrizes, do culto da terra e da redimensão da linguagem. Sua prosa anfíbia, eu diria úmida como massapê, é de puro encantamento em conversas ociosas, onde rolam palavrões e barulho de bêbedos. A obra de Dirceu Lindoso é uma espécie de comédie inhumaine, onde forças misteriosas controlam o nosso destino e sua sombra nos assombra com a aproximação da morte. O mundo está sempre em pé de guerra, mas os seres humanos não são meros joguetes da sorte ou títeres sem alma: ainda podem enfrentar essas forças ocultas e sempre haverá a possibilidade do sonho social e da utopia armada. Por vezes, esta prosa molhada aproxima-se do estilo coloquial de Gilberto Freyre.

Articulado na magia verbal da narrativa, o romancista Dirceu Lindoso arma-se de todo o arsenal do idioma, como deslocamento de sintaxe, expletivos, arcaísmos, associações mórficas, neologismos, onomatopeias, anacolutos, regências insólitas, metonímias e demais bruxarias da linguagem. Não resta a menor dúvida de que Dirceu Lindoso conhece bem o filósofo alemão Heidegger, para o qual “Só há mundo onde há linguagem”, e a linguagem do mundo é o mundo da linguagem. O próprio Dirceu Lindoso há anos revelou-me em carta que “se não houvesse linguagem a humanidade enlouqueceria”.

 

Um leitor tarimbado vai pensar logo em João Guimarães Rosa ou James Joyce, mas na diegese lindosiana não há assimilação passiva, e sim massiva e complexa absorção antropofágica das técnicas e estilos, onde o texto devorado transforma-se em um novo texto original. E aí ele dá um banho de linguagem. De repente, determinado personagem quebra o silêncio e passa a falar como se fosse um goliardo, quer dizer, um poeta medieval, fruto da mobilidade social do século XII. Há uma inversão profunda e paródias de estilos e formas de se assimilar a realidade através do aparelho lírico.

Ler Dirceu Lindoso requer o mesmo grau de atenção da leitura de um conto de João Lopes Neto ou das insólitas estórias de João Guimarães Rosa. E, lá e cá, não se trata de mero regionalismo. O regionalismo aqui é um jogo de espelhos. Por exemplo, o homem, o ambiente e a luta não são compreendidos de maneira mecanicista, mas cada um desses fatores interage no outro, pois se está diante de um novo paradigma de literatura. A percepção que temos é de que “o sertão é dentro da gente”. O regionalismo em Dirceu Lindoso não cultua o pitoresco nem o exotismo de fachada, nem submete a estrutura do texto à mera cor local. Não é mais aquela carpintaria de um “caipira picando fumo”, tipo Cornélio Pires, ou o indolente Jeca Tatu, do grande Monteiro Lobato; antes, se deve pensar nas vibrações verbais de um João Guimarães Rosa. Dirceu Lindoso, por intermédio do homem do sertão, revela a presença dos problemas humanos universais. Samuel Beckett afirmou que Finnegans Wake não era um livro sobre alguma coisa, era a própria coisa. A linguagem em Dirceu Lindoso, ora arcaica ou neológica, beneficia-se desse imenso sortilégio verbal que o autor inventivamente domina.

 

Talvez soe esquisito às mentes acadêmicas associar o nome de Máximo Gorki com o de modernos escritores ocidentais. Mas Gorki não foi só um autor primitivista, ou realista-naturalista, como consta nos manuais de literatura. Gorki foi homem de cultura sofisticada, reproduzindo em seus relatos emocionantes as estórias que ouviu quando criança, os chamados bylines, ou contos populares russos. E os seus textos sobre Tolstói e Lênin, segundo Carpeaux: “revela inteligência penetrante e poder irresistível de evocação”, daquela velha Rússia pré-revolucionária de convulsões sociais. Gorki tornar-se-ia marxista e com destacada atividade política na revolução de 1905. Os comparatistas apontam a sua influência no romeno Panait Istrat, no alemão Kurt Klaber, no búlgaro Jordan Jovkov, passando pelo chinês Lu Hsun, o húngaro Jenó Tersánszky, o esloveno Ivan Cankar e o norte-americano Jack London. No Brasil, não há como não pensar em Lima Barreto e — pasmem! — João Guimarães Rosa! Nos romances de Dirceu Lindoso, na indefinida cronologia dos episódios, aparece sempre um “tipo permanente” de sujeito que expressa a sabedoria popular e resume o espírito do tempo, técnica também presente em Gorki. Na literatura popular, é patente a presença de Pedro Malazarte, o astuto personagem mítico, matutando sobre o mundo e derrotando os adversários mais poderosos. Titica Manuel bem poderia ser o irmão caçula de Riobaldo.

O laborioso laboratório literário lindosiano sugere um enorme leque de leituras e nos revela um pesquisador aplicado, que faz anotações sobre tudo que precisa utilizar em seus contos e romances, ou seja, documentação, consultas e imensas leituras prévias. Mário de Andrade, em sua colheita de material, possuía um fichário de frases feitas e de provérbios, como confessou em carta a Manuel Bandeira, utilizado na confecção do romance Macunaíma. Guimarães Rosa, analogamente, elaborava seus contos cientificamente, com documentação de nomes de pássaros, de rios, de lugares etc. Dirceu Lindoso também não escreve de improviso, muito pelo contrário; acreditamos que ele se empenhe em intensas pesquisas de campo. São processos de reutilização de vocabulário e expressões populares.

 

Somente um estudo bem aprofundado, que não é o nosso caso, poderia elucidar os toponímicos e antropônimos que Dirceu Lindoso reuniu em seus romances. Exibindo erudição enciclopédica sobre o grande sertão, e com o traquejo de um etno-historiador, numa escrita debochada e desbocada, entre elipses e subentendidos, expandindo a sua inventividade lexical, ele segue espantando os leitores de primeira viagem. E com a sua prosa fluvial, ele atinge o nervo da linguagem, onde se funda a fala do povo. Às vezes, pensamos estar diante de um neologismo, mas a palavra é vernacular, em estado de dicionário, mormente arcaica ou em desuso. Palavras como “piroco”, “quicé”, camboeiro, “sarrabalho”, “anho” etc. assustam o leitor de primeira viagem, que vai buscar socorro nos dicionários, já meio grogue com essa pantagruélica linguagem.

O final da estória de O cão pisado nos leva a uma trilha onde nos deparamos com a ruptura social, já pressentida pela própria fratura do tecido verbal. O segundo capítulo, que é o mais curto, não passa de uma preparação psicológica para o que o autor denomina de O Grande Arraial, que é o terceiro capítulo do livro, onde os habitantes desse grande sertão buscam construir uma espécie de falanstério, ou sociedade socialista primitiva, para que os pobres “não passassem fome”. Trata-se da criação de um imenso arraial que abrigasse todas as pessoas, pois, afinal, “para que serve o Mundo senão para vivê-lo”. São páginas de profundo lirismo sem decair em superficial denuncismo ideológico. A ambivalência do mundo e os conflitos inerentes ao homem fazem com que o projeto de uma cidade ideal redunde em estrondoso fracasso. Forças obscuras e reacionárias atuam contra a ideia desse Grande Arraial, seus mentores são perseguidos e o final do filme todos nós, terceiro-mundistas, já sabemos de cor. Frustra-se a tentativa de uma Utopia na terra, pois não é assim que o mundo funciona. Nas palavras do poeta Rilke: “Não falemos de vitória, sobreviver é tudo”. Na Oferenda final, o autor rende homenagem a dois personagens de carne e osso que fizeram parte das relações pessoais do homem Dirceu Lindoso. Então, emergem das páginas as figuras vivas de Rubens Colaço e Laudo Braga, velhos companheiros de viagem que nunca abandonaram as suas convicções políticas nem os seus ideais socialistas. E, dessa forma, a estória propriamente aí se encerra, como frisa o próprio autor, rabiscando com a caneta as derradeiras palavras do texto.

 

Nas estórias contaroladas por Dirceu Lindoso, que é um farejador de mitos, há reminiscências do Amadis de Gaula, do Santo Graal, do Don Quijote, e, naturalmente, de tantas coisas ouvidas e vividas, quando menino, na sua querida Maragogi. Não esqueçamos as velhas lendas da História do Imperador Carlos-Magno e dos doze pares da França, que, segundo Câmara Cascudo, foi um dos livros mais lidos no Brasil no século XIX e inícios do século XX.

Nas conversas perplexas das personagens, que vão e vêm com regularidade espontânea, ouve-se um alarido de lamúrias e o quebranto de queixumes de todos aqueles que “vivem na privação da vida”. Muitas vezes no discurso da personagem chegamos a respirar certa irrealidade. Mas, o que é o real, afinal? Para o físico Niels Bohr, “Tudo aquilo que chamamos de real é feito de coisas que não podem ser consideradas reais”. O próprio tempo, na concepção da física moderna, que estuda a estrutura da matéria, é uma categoria abstrata. O próprio pensador católico Santo Agostinho, ao refletir a respeito do tempo, tangenciou: “Se não me perguntam, eu o sei; mas se me perguntam, e quero explicar, não sei mais nada”. Para desencorajar os leigos no assunto (entre os quais eu me incluo), digamos que, para a física moderna, o tempo seja incognoscível, pois a velha distinção entre presente, passado e futuro, para Einstein, não passa de obstinada ilusão.

 

Refrisamos que Dirceu Lindoso não é um escritor regionalista stricto sensu porque, nele, o homem do sertão não se insere no tipo pitoresco ou puramente exótico, porém, através desse homem particular do sertão apresenta-se o homem universal, com toda a sua extensa problemática humana. O sertão é o mundo. E a equação entre o microcosmo e o macrocosmo revela certa intenção demiúrgica; o tempo fincado na eternidade. O curso das eras. E nessa simbologia entre o micro moldando o macro, incrusta-se a frase de Tolstói: “Pinte uma choupana e serás universal”.

Na prosa de Dirceu, pervaga o paradoxo e a ambiguidade, a alteração constante do estar-no-mundo nessa travessia onde o bem e o mal se misturam. Contraposta à ficção de um Euclides da Cunha, por exemplo, onde há um inabalável nexo causal entre o meio, o homem e a luta, em Dirceu Lindoso esses fatores estão misturados, embaralhados. As coisas são e não são na dialética irreversível da vida. Em conversa reservada e franca, certa vez Dirceu Lindoso me confidenciou que, ao começar a escrever os seus romances, ficara perplexo de sua familiaridade com o linguajar agrário e feudal do grande sertão, conhecimento, claro, ampliado por estudos posteriores acerca do Brasil profundo.

 

Esse universo rural, onde pervade a figura do vaqueiro metafísico, fornece a matéria com a qual Dirceu pinta os seus romances, cujos personagens, mergulhados em pobreza secular, falariam com a dureza do dramaturgo Ibsen: “O melhor amor é o ódio”, pois quem vive entre feras tem que aprender a ser fera. Ou no lampejo de Nietzsche: “O Estado é o mais frio dos monstros”.

 

Se a leitura, como queria Borges, é uma forma de felicidade, ler Dirceu Lindoso, além de despertar a nossa consciência para a realidade incontornável da vida, ainda nos presenteia com o prazer do texto em suas comoventes e divertidas narrativas. Estamos em pleno campo da mais alta forma de literatura e que exprime o supremo triunfo do espírito criador humano.

Lagamares: Dirceu Lindoso, um escritor sem fronteiras

 

O Diccionario da Língua Portuguesa, do velho Moraes (Lisboa, 2 vols., 1813), assim define lagamar: “espécie de concha ou molle, ou poço no mar rodeyado pela natureza”. Lagamares é o título do novo romance de Dirceu Lindoso, com texto corrido, sem capítulos ou divisões, onde a carga afetiva de seu artesanato linguístico impõe-se numa oralidade que é o objeto de sua prosa. Retomo a questão do regionalismo, conceito controvertido, cujas características seriam o típico, o exótico, a cor local, e que se refere ao conteúdo específico de uma região, expresso na linguagem. No Brasil, a prioridade cronológica desse gênero literário remonta aos romances Os caboclos (1920), de Valdomiro Silveira, e de Frutas do mato (1920), de Afrânio Peixoto, definitivamente anos-luz distantes da prosa inventiva de Dirceu Lindoso.

 

As estórias de Lagamares, embora problematizem as questões sociais e enfatizem a temática do sertão colosso, são no formato de um texto cômico-picaresco, no melhor sentido da palavra. É obra cômica com toques de libidinagem rabelaisiana. Aqui, Dirceu Lindoso leva o humor picaresco às raias do grotesco e o leitor não consegue evitar as sonoras gargalhadas diante das situações cômicas, como a do pedinte que se urinou nas calças porque “tinha as águas soltas”.

 

Os procedimentos linguísticos de um e outro romance são parecidos, mas aqui o humor tem um tratamento mais acalorado. Humor que se espalha pelo texto contaminando a própria estrutura narrativa em suas inflexões estilísticas. A utilização de vocábulos salaciosos e, ou, obscenos abunda e supera as invectivas tímidas das estórias do Cão pisado. Novamente, Dirceu Lindoso explora em profundidade o seu engenho na criação toponímica e antroponímica, revitalizando, nesse sentido, as experiências regionalistas. Eu diria que Dirceu Lindoso é um escritor transregionalista, se esta palavra não fosse tão pedante. Há quase uma rebelião linguística e as estórias e causos são revisados e revitalizados: estórias dentro de estórias. Num simples lance de dados, somos atingidos em uma enxurrada de nomes de lugares, como Bica do Bitingui, Carvão de Dentro, Gamela da Barra Grande e dezenas de toponímicos dessa “gente da praia gulosa”, numa espantosa riqueza vocabular. Os antroponímicos pululam nas páginas, com graça e bom humor, como o toureiro bêbedo Canário; a assanhada bodegueira Ção; o padre Durval, soi-disant “herege e putaeiro”; o compadrito Antônio Mijão, valente anti-herói dos lagamares; a viúva Dona Nanu; o coiteiro e coronel Batista; Sinhá Miné (minete?); a menina-moça-puta Querrenca, amásia de todos os necessitados deste mundo; e a fajuta Dona Olívia, “quenga sirigaita” de toga, a esposa pouco virtuosa de um juiz corno da região. Não faltam expressões escatológicas, mas autenticamente republicanas, e o autor até esmera-se na classificação das espécies de flatulências, em bem-humorada pândega.

Em Lagamares, o humor e o erotismo caminham de mãos dadas e fazem parte de nossa identidade nacional, aliás, estudada com afinco por Paulo Prado, em seu livro Retrato do Brasil. As estórias contidas em Lagamares já pertencem ao cânone cômico-libidinoso da literatura brasileira, de fundo rabelaiseano. Há sensualidade sem frenesi báquico; uma prosa galante, como o erotismo era conhecido em outros tempos. Porém, os seus experimentos com a linguagem o afastam do sensualismo já convencional de um Júlio Ribeiro. É vinho de outra pipa. Dirceu Lindoso não desce aos pormenores lascivos do ato sexual, fica na sugestão ou imediações que culminam em uma frase de efeito, como quando se refere a Dona Olívia, a “quenga sirigaita de toga”. Não escreve para excitar o leitor, mas para desvendar as grotescas contradições humanas. Creio que a crítica tradicional encontrará dificuldades em classificar estes dois livros dentro do cânone literário convencional. Seria romance, rapsódia ou conto? Obras assim não são feitas às pressas, demandam longa gestação. Versado nos clássicos e tratando em pé de igualdade os grandes mestres das nossas ciências sociais, Dirceu Lindoso conhece a fundo autores como Amadeus Amaral, Leonardo Motta, Pereira da Costa, Capistrano de Abreu e o nosso Mário Marroquim, autor do livro A língua do Nordeste, tão bem recebida pelo filólogo João Ribeiro. Dirceu Lindoso leu tudo e digeriu tudo.

Lagamares é uma pequena rapsódia lírico-cômica, vez por outra incidindo no nonsense, onde a supressão de capítulos, na ordem tradicional dos romances brasileiros, empurra o texto para uma legibilidade nem sempre completa. Recomendaríamos aos leitores que lessem Lagamares enquanto escutam as canções ibérico-sertanejas do compositor baiano Elomar.

 

O mar, enquanto paisagem física, figura na obra de Dirceu Lindoso desde o clássico Mar das Lajes (Maceió: Edições Catavento, 1999) até, por exemplo, Lagamares, o que não é de se estranhar, levando-se em conta o vasto litoral nordestino, banhado pelo oceano Atlântico, e o nosso molecular destino anfíbio.

José Lins do Rego publicou cinco romances que tratam do “ciclo da cana-de-açúcar”. Entretanto, a sua obra de cunho regionalista não pode ser considerada simplesmente littérature engagée ou denuncista. Zé Lins foi removido para Maceió em 1926, ocupando aqui a função de fiscal de bancos até 1935. Em seu romance Riacho Doce (1939), o cenário marítimo não consegue substituir a presença sertaneja. O sertão está em toda parte como imaginário mítico. E onde arde hoje a “geografia do sertão seco” existiu geologicamente o mar em épocas profundas. O sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão, frase atribuída ao beato cearense Antônio Conselheiro, armado até os dentes. É a presença do coco e do coqueiro, das redes de pesca e das ilhas como episódio geográfico, épico e dramítico. É a velha Maceió insular e pré-urbana, na lira dos poetas. Mas o elemento talássico não frequenta os romances de Dirceu Lindoso como cenário ornamental, ao oposto, ele representa o espaço onde os seres humanos existem e trabalham, de sol a sol, pela precária subsistência. Não é o mar mitificado numa moldura mesológica, mas a sua existência física na vida dos alagoanos. Outros escritores, como Graciliano Ramos, Jorge de Lima e Lêdo Ivo, também introduziram o mar em suas obras literárias, cada qual à sua maneira. O paraibano Eidorfe Moreira, em seu excelente livro Presença do mar na literatura brasileira (Belém, 1962), analisa com arguto rigor crítico tais temas estéticos. Aliás, a presença equórea ou talássica como sugestão poética já se observa em um quarteto de Lêdo Ivo, no seu praieiro Soneto da Ponta da Terra:

E eu que nada te dei, ó mar, a quilha
de minha alma encaminho aos teus países
para que tuas águas banhem a ilha
dos meus sonhos maiores e felizes.

 

Essas duas estórias de Dirceu Lindoso são pequenas obras-primas que refletem a realidade social e os arquétipos do mito coletivo, transfiguração deste Brasil profundo, onde o sertão está em toda parte, mas um sertão construído na linguagem. Respira-se o épico em suas páginas e o lirismo insinua-se como chave para se interpretar a sua narrativa. Uma mescla de penetração psicológica e objetividade como processo de protesto contra o mundo capitalista que esmaga o homem. Afinal, a terra é do homem, não é de Deus nem do Diabo. Guimarães Rosa acertou na ferida: “Existe o homem humano”. O resto é literatura.

(*) Ensaísta, poeta e compositor.

Norton Sarmento, Dirceu Lindoso e Marcos de Farias Costa. Foto: Acervo Marcos de F. Costa.

 

 

 

 

 

 

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